Voltei do Funchal retemperado. As ameaças de intempérie só fizeram com que o sol e o bom tempo me soubessem ainda melhor. A visita começou culturalmente, com visitas à Igreja do Colégio e à Sé do Funchal. A Igreja do Colégio surpreende pela profusão decorativa, onde entre talha e pinturas, não resta quase um centímetro por decorar, e onde um Cristo inédito pende da cruz por apenas um braço! Na Sé Catedral davam-se graças por 2008, cantava-se o Te Deum de fim de ano, com direito a Governo Regional - AJJ incluído - ao tristemente célebre Presidente da Assembleia Legislativa, mas também a Altezas do continente, Duques, Infantes e Infantas... O Coro de Câmara da Madeira foi absolutamente brilhante.
A noite começou com um convite para a Meia Noite numa sagrada casa à beira dos Barreiros e a promessa de uma canja milagrosa - cujo segredo veio a ser canela, propriedade surpreendentemente afrodisíaca numa tão sacra sopa. À meia noite, o fogo, solene, exuberante, que me impressionou menos que há 2 anos, mas que permanece o que acho ser a melhor forma de começar o ano. As passas, os desejos da praxe, as fotos. A vista das irmãs é invejável: estou em crer que, com todo o champagne que sobrou, elas viram fogo de artifício nos três dias seguintes. Mas merecem, pela canja, deliciosa, a melhor que já comi; recolheram antes de começarem os filmes com bola encarnada, aparentemente típicos da noite de fim de ano depois dos programas de pseudo-humor e este ano dos pequenos cantores da TVI. Começaram então as festas, no Museu primeiro, no Instituto do Vinho depois, apertos dançados como nunca, Katy Perry com a multidão a fugir da chuva, única nestes dias.
Não foi a noite longa que poderia ter sido - as 6h foram o meu limite - porque na manhã do dia 1 esperava-me o carro alugado, autêntico canário em cor e pouco mais que isso em potência - mas cheio de estilo. De carro segui para norte, essa costa exuberantemente verde, cheia de pequenas quedas de água, de pequenas terras escondidas, de fajãs, lombos e lombadas. Em Ponta Delgada, antiga Corte do Norte (o livro da Agustina já está adicionado aos meus to read, e vai sair o filme com o mesmo nome), revi a obra de arte inesperada que é o tecto do Santuário do Bom Jesus. Estou certo de que esta amostra das glórias passadas desta Corte será considerada uma obra prima nos próximos séculos. É a primeira obra de tal envergadura que conheço, que combine elementos religiosos com a contemporaneidade no uso dos motivos, como as asas de borboleta com que foram brindados um par de anjos e a profusão de animais que polvilham o tecto, junto com elementos dos Descobrimentos e afins.
Nesse fim de tarde, começou nas Lombadas (a Iª, com direito a recepção oficial, e a IIª) a visita aos pontos de interesse desta costa norte, com mais conhecimento sobre as tradições das lapinhas madeirenses, os presépios de triguinho (na minha terra são Searinhas do Menino Jesus) e fruta. À noite, entre a continuada surpresa pelo tamanho e encanto do cemitério, o engenho das gavetas e o destino dos ossos, assisti uma vez mais ao extraordinário som do eco dos foguetes de gáudio pelo Novo Ano e pela festa do Bom Jesus, autêntico simulacro de bombardeamento pela Frota da Majestade Católica ou, se a houvesse, do Sultão de Marrocos. No dia seguinte, entre a embriaguez que as paisagens provocam e a surpresa por algumas decorações natalícias, passeámos por montes e vales, túneis e curvas turtuosas, vilas e aldeias, de São Vicente* a Boaventura, passando por São Jorge e a sua igreja de talha que alguém suposera no Arco, o Lombo do Urzal e outras cujo nome me escapa.
De regresso ao sul, e entre brisas maracujá sem fim (deliciosos, os produtos regionais) jantei a tradicional espetada no Estreito de Câmara de Lobos, com bolo do caco e milho frito, e planeei um novo e derradeiro dia, que começou com compras, encomendas várias e peças para o presépio que são raras e más no continente. Apesar de ter pensado visitar o Museu de Arte Sacra, acabei por seguir outros planos. Almocei na pitoresca
Fajã dos Padres, antiga propriedade jesuíta, com sublimes aromas que não sei se eram de urze (confesso que não sei a que cheira) mas tinham lama à mistura, que a intempérie tinha deixado pelo caminho. Para lá chegar desci um elevador de mais de duas centenas de metros, qual Torre Eiffel de uma só vez!, sem apelo para vertigens mas com considerável segurança se tivermos em conta a amostra de elevador que se ergue ao lado, o antigo, que ainda funciona...
Depois do almoço e do passeio pelas vinhas dos padres, cruzei a Ilha e acabei por chegar à Ponta de São Lourenço, réstea de natureza na ponta mais industrializada do Arquipélago, para onde já fiz contratos quando era advogado. Caminhei, com as Desertas como cenário de fundo, pelos estreitos caminhos, subindo e descendo, fascinado com a paisagem, almejando o fim dos 3 kms anunciados, mas sem grande esperança de lá chegar em tempo útil. Não era só o anuncio da noite, mas o voo de regresso ao frio continente. Acabei por desistir e deixar para outra vez o passeio completo, para quando for descer as levadas. Mas voltei cada vez mais convencido de que, diga-se o que se disser, depois de Deus ter dado à Madeira os atributos naturais manifestamente únicos e não querendo com isto comparar quem quer que seja ao Criador, alguém fez daquela Ilha um local convictamente moderno, uma região de que Portugal tem de se orgulhar.
* Para quem é fã de novelas da TVI, na que se passa em São Vicente - e que foi gravada lá - desapareceu a imagem do santo. Não sei se para corroborar o roubo na ficção, a imagem do padroeiro tinha efectivamente desaparecido da igreja...