sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Tiques de terceiro mundo

Não ia escrever mais nada sobre o assunto para já, mas tenho de comentar algumas coisas que ouvi esta noite na TVI. Além do já célebre tio do Primeiro Ministro - com um ar bastante convincente, a revelar o petit nom do sobrinho - falou Francisco Louçã, pessoa com a qual não tenho absolutamente nenhuma afinidade política e que normalmente me tira do sério pelo populismo disfarçado de intelectualidade. Disse coisas com as quais não concordo, nomeadamente quando questionou a legitimidade da investigação britânica. Mas disse algo muito acertado: não é o que se viu esta semana que se deve esperar da justiça.

De facto, a profusão de comunicados e de entrevistas por parte do Ministério Público com que fomos bombardeados esta semana deixou-me a pensar se terá ficado alguém a investigar e a tentar resolver o caso que marca a actualidade e a responder à carta rogatória das autoridades britânicas. O frenesi que é manifesto na Procuradoria é pouco dignificante. E, como disse Louçã, melhor seria que estivessem calados e não viessem para a televisão defender uns e lançar suspeições sobre outros. Investiguem, arquivem se for de arquivar, constituam arguidos se houver a constituir, mas comuniquem só quando houver alguma coisa. Elucubrações dispensam-se. Por outro lado, os comentários do Procurador Geral da República sobre a "moda do Freeport" que sucedeu à "moda da Casa Pia" são muito pouco próprias. Há tiques de terceiro mundo judicial em toda esta semana.

Finalmente, no Expresso da Meia Noite na SIC Notícias, Ricardo Costa acabou de qualificar o momento que vivemos como de "crise institucional". Continuam as revelações na imprensa, continuam as violações do segredo de justiça, começam a chegar as sondagens e a situação do Primeiro Ministro continua a ficar inevitavelmente mais delicada perante tudo isto...

Apetece, por vezes, emigrar

Num país onde a suspeição governa e a mentira reina, apetece, por vezes, emigrar. É certo que se deve deixar a justiça fazer o seu trabalho, que não se deve julgar sem provas, que todos são inocentes até prova em contrário (e prova que possa ser apresentada em tribunal...). É, pois, justo que a oposição não peça a queda do Primeiro Ministro e que o Presidente o não demita. É muito justo que se critiquem as demasiado frequentes quebras do segredo de justiça - só é pena que só se critiquem quando convém. É ainda justo que o suposto suspeito que nega sê-lo (embora seja estranho que a ele caiba dizê-lo) defenda a sua inocência. Mas o problema não acaba aqui, neste exercício de justiça.

Para alguém que acompanhe a actualidade internacional, será difícil encontrar um paralelo com a situação de suspeição que se vive neste momento em Portugal - sem que tal não tenha causado a demissão do suspeito - o único caso que me vem à cabeça é o do Presidente del Consiglio, Berlusconi. Porque, em qualquer país e sobretudo no momento de crise que vivemos, é importante que não haja suspeições sobre quem rege os destinos e muito menos investigações internacionais. Nestes casos, pouco adianta falar em cabalas e em forças do oculto ou do além, lembrar que não há provas ou atacar a imprensa. E quando os rumores não são, como manifestamente não são, apenas resultado de denúncias anónimas velhas e fora de prazo, bom seria que o bom senso imperasse.

Sem querer comparar Sócrates e o ex-Primeiro Ministro britânico, este clima de suspeição faz-me lembrar, na devida e humilde escala, os tempos do governo de Tony Blair e a crispação que se gerou, as histórias mal contadas sobre os relatórios que diziam que havia armas de destruição em massa no Iraque e que justificaram a intervenção britânica ao lado dos Estados Unidos de Bush. A propósito, a história do suposto relatório da OCDE sobre a educação em Portugal, anunciado com pompa e cujo anuncio me impressionou, para me escandalizar a mentira depois, só me recordou o spin dos trabalhistas britânicos. Blair foi "ilibado", nunca se provou que os relatórios fossem obra dos seus spin doctors, até governou relativamente bem. Mas a suspeição perdurou e a intervenção no Iraque foi sempre considerada o motivo maior da sua inevitável demissão.

Deveria demitir-se o Primeiro Ministro Sócrates? Se for só para adiantar as eleições, manifestamente não. Não tenho dúvidas de que, sob suspeita ou não, o Partido Socialista ganha - casos de políticos manifestamente suspeitos e por vezes manifestamente corruptos que ganham eleições não faltam por aí. Poucas dúvidas tenho de que o Primeiro Ministro acabará também ele por ser "ilibado" por total ausência de provas - é o mais provável. Mas é, enfim, a eterna história da mulher de César: em nome da clareza e da estabilidade de que o país precisa, acho que o Primeiro Ministro deveria pelo menos ponderar seriamente a candidatura à frente do PS nas próximas eleições.

É que se, no actual momento de crise - e não apenas no que resta deste mandato mas em boa parte do seguinte -, vamos ter as atenções do Primeiro Ministro e do seu Gabinete e do seu Governo inteiro viradas para as notícias que, dia após dia, venham a surgir na imprensa a propósito de um caso judicial que se vai arrastar, pior estaremos do que o que já se anunciou.

domingo, 25 de Janeiro de 2009

The Curious Case of Benjamin Button

Houve quem chorasse, bastante, copiosamente... Eu, sem dar para tanto, achei muito, francamente muito bom. Um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos, apesar de me parecer que o argumento seria difícil de adaptar. Interpretações e cenários brilhantes (fico por perceber porque é que a Cate Blanchett não foi nomeada...), merece as 13 nomeações para os Oscares, embora possa acontecer o que já aconteceu nos Globos de Ouro. Fico à espera de ver o Slumdog Millionaire para perceber se é melhor. Este recomenda-se.

sábado, 24 de Janeiro de 2009

Humor britânico

Do Times.

terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

O'er the land of the free and the home of the brave...

Não valerá a pena repetir o carácter histórico deste dia, em que Barack Hussein Obama se tornou no 44.º Presidente dos Estados Unidos da América. Não se tem falado de outra coisa. A cerimónia foi brilhante, sob um sol fabuloso, em frente à maior multidão que D.C. já viu. Alguém poderá dizer que Dick Cheney decidiu aparecer de cadeira de rodas de propósito, para atrasar a cerimónia - e conseguiu, de maneira que Obama foi Presidente antes de jurar a Constituição. Poderão dizer também que o Chief Justice polemicamente nomeado por Bush tentou trocar as voltas a Obama, ao trocar a ordem das palavras do juramento constitucional - mas o Presidente knew better. Mas o que vale a pena destacar é, na minha humilde opinião, o brilhante e corajoso discurso do novo Presidente dos Estados Unidos - apesar de aparentemente haver discordância da parte de algum eminente comentador da televisão nacional.

Quem esperava um discurso, tal como o da vitória, para que a incrível multidão no Mall de Washington gritasse "yes we can" ao fim de cada parágrafo ou cheio de frases para a história, terá ficado decepcionado. Foi um discurso de conteúdo, de chamamento, de apelo ao renascer dos Estados Unidos da América. Houve citações não identificadas, mas o único a ser identificado foi, significativamente, o primeiro Presidente, George Washington, num apelo feito antes da independência. Fê-lo sem medo de dizer que os Estados Unidos tinham que mudar, que o Mundo tinha mudado e que as pessoas têm de mudar com ele. Sem negar os seus próprios deveres, fez o que me parece essencial: transferiu responsabilidades para o povo americano e de certa forma para todos os povos do mundo. Se queremos que o mundo mude para melhor, temos de fazer por isso.

Para já fica o novo site do novo Presidente dos Estados Unidos: http://www.whitehouse.gov/ e ficam as palvras do primeiro Presidente, repetidas por Barack Obama neste "winter of our hardship" como chamou aos tempos que atravessamos, e o final do discurso, brilhante, histórico, arrojado:

"Let it be told to the future world ... that in the depth of winter, when nothing but hope and virtue could survive...that the city and the country, alarmed at one common danger, came forth to meet (it)."

"America, in the face of our common dangers, in this winter of our hardship, let us remember these timeless words. With hope and virtue, let us brave once more the icy currents, and endure what storms may come. Let it be said by our children's children that when we were tested we refused to let this journey end, that we did not turn back nor did we falter; and with eyes fixed on the horizon and God's grace upon us, we carried forth that great gift of freedom and delivered it safely to future generations."

domingo, 18 de Janeiro de 2009

Obama no Lincoln Memorial

O quase Presidente dos Estados Unidos fez esta noite mais um grande discurso no Lincoln Memorial em Washington, em frente ao local onde na Terça-feira vai tomar posse como o 44.º Presidente. Evocou a memória de George Washington, dos tempos de FDR, de Martin Luther King e, claro, de Abraham Lincoln. Repetiu algumas frases de outros discursos, mas a ênfase no povo que o elegeu e que estava ali em frente dele aos milhares. Prometeu levar a voz deles para a Sala Oval e diss que "the true character of our nation is revealed not during times of comfort and ease, but by the right we do when the moment is hard". As festas continuam...

Cardeal sem papas...

Quando fui para Madrid já tinha ouvido as declarações do Cardeal Patriarca de Lisboa sobre os casamentos das jovens católicas com muçulmanos. Imaginei que o que resta do Carmo caísse e que a Trindade, ali ao lado, fosse pelo mesmo caminho, até porque para os muçulmanos Deus é uno e não trino. O Cardeal não teve papas e disse o que muita gente pensa ou deveria pensar: que é necessária muita cautela na relações com o Islão, sobretudo quando essas relações podem implicar uma submissão à lei islâmica. A história recente da religião islâmica, nomeadamente o radicalismo da interpretação do Corão e Sharia que é seguido em muitos países deveria ser suficiente para se perceber o que disse o Patriarca. Os exemplos de países que tinham uma visão menos rígida da lei islâmica e que, por medo de represálias por parte de grupos terroristas, tiveram de endurecer essa visão não pára de aumentar e começa mesmo aqui a sul, em Marrocos.

As palavras do Cardeal são pouco ortodoxas, mas são perfeitamente justas. Os sarilhos existem. Podem até não existir nos maravilhosos casos de sucesso que foram relatados pelo Público de quinta-feira, que acabei de ler - ainda bem que existem casos de sucesso! Tempos houve em que, nesta mesma Península, viviam lado a lado Judeus, Muçulmanos e Cristãos e quem nos dera que tal voltasse a acontecer, em todo o Mundo. Os erros foram de parte a parte, os mea culpas foram feitos, devíamos passar a fase do absoluto perdão e da coexistência pacífica e harmónica. Mas muitos muçulmanos de hoje estão longe da tolerância que o Ṣalāḥ ad-Dīn (dito Saladino por facilidade de pronúncia e escrita) mostrou ao permitir que os critãos permanecessem em Jerusalém, depois da reconquista da cidade pelos exércitos de Alá.

Todos se lembram, com certeza, das "tolerantes" manifestações pelo mundo muçulmano quando o Papa Bento XVI proferiu um discurso na Universidade de Ratisbona, em que citou uma frase que criticava a violência tolerada pelo Islão, sem se demarcar totalmente da frase citada. As reacções causaram inclusivamente a morte a várias freiras em África, além de uma onde de manifestações pouco dignas de uma religião que se diz tão boa e tão tolerante. A comparação não deveria ter de ir mais longe do que o nível de tolerância para com as outras religiões que há nos países de maioria muçulmana e o que há nos países de maioria cristã. Mas note-se: é o Patriarca de Lisboa que tem medo de perder fiéis, como dizia uma das indignadas entrevistadas no Público...

Felizmente, no nosso país de brandos hábitos e de monges, as reacções foram menos exaltadas. Mas, como diz a Conceição!, "we never know...". A propósito, a indignação histérica de uma senhora que, no mesmo Público, ponderava apresentar uma queixa crime contra o Cardeal Patriarca pelas declarações. Mostra, na minha opinião, que está contaminada com a "tolerância" dos tais muçulmanos radicais para com as demais religiões, apesar de ela ser um exemplo da indefinição: as filhas são ao mesmo tempo católicas e muçulmanas (pasme-se). Não sou entendido em religião, nem cristã nem muito menos muçulmana. Falta-me ler muito e perceber muito mais. Mas que o "marido" (sim, que ela afinal não é casada!) da senhora cumpra com todas as leis do Islão e que ao mesmo tempo viva maritalmente com uma católica e tenha filhas na catequese, parece-me duvidoso. Mas vou tentar saber. A vida da senhora, repito, não é apenas de tolerância, mas de indefinição. E o mundo quer-se tolerante sim, mas definido. Se não estiver definido, não se resolve nada.

Lisboa de 57

A propósito das faluas que não vi em Aranjuez e de um recente artigo da revista Sábado sobre o esplendor do Portugal dos 50 e 60, há 2 anos comemoraram-se os 50 anos da visita da Rainha Isabel II a Portugal, momento alto do Estado Novo, que deu lustre ao regime e encheu as ruas de curiosos. Estava a pesquisar por fotos de Portugal nas fotos da Life que o Google incorporou e encontrei uma fotos a cores da chegada da Rainha que nunca tinha visto e que ilustram bem o que foi essa visita. Numa ou duas vê-se a chegada do Bergantim Real ao Cais das Colunas. Mais fotos aqui.

Madrid

Vistas da cidade imperial, com direito a Tejo

Toledo judia

Sinagoga del Tránsito


Santa María la Blanca

Toledo cristã

Catedral de Santa Maria


Mosteiro de San Juan de los Reyes


Hospital de Santa Cruz

Aranjuez

San Lorenzo de El Escorial

Monumental Toledo

Fui, rapidamente, a Espanha, à semelhança do que fizera no ano passado. Pouco vi do clássico Madrid dos incríveis museus, dos Velázquez e dos Goyas. Fui só, no último dia, ao Palácio Real, que só vira na primeira visita no longínquo Setembro de 2004 e onde ainda se arrumavam passadeiras e tapetes de uma recepção de cumprimentos do insigne Corpo Diplomático ao augusto Rei. Impressionou-me menos que da primeira vez; achei menos bem iluminado, com pouca informação e com uma visita demasiado rápida. Para minha grande mágoa proibíram as fotografias, mesmo sem flash; o que já tinha acontecido em quase todos os sítios que visitei...

Comecei a visita com o regresso a San Lorenzo de El Escorial, onde os Felipes de Espanha que também foram de Portugal mandaram construir um pio e vasto Mosteiro, onde os seus quartos de dormir davam para o altar mor da Basílica e onde o denso nevoeiro me fez pensar se o primo Sebastião teria decidido voltar para responder à ocupação do seu trono. Com o frio que faz naquele mosteiro, ninguém se admira que o tempo no pudridero seja tão longo, até que a majestade dos mármores acolha os reais ossos já carcomidos. A Basílica está em restauro, preparação talvez para augustos tristes momentos, que se julgam longe, mas nunca se sabe. No final fui em busca de lojas que os quatro anos desde a última visita não apagaram da memória, mas que o destino quis fechadas, e com elas as caixas, de cuja magia nunca se saberá ao certo.

O objectivo da minha visita era Toledo, a muito recomendada cidade do Primaz da Espanha, mas começou com uma visita ao Palácio de Aranjuez, Património da Humanidade, ali ao sul da capital. O gelo tinha fechado os célebres jardins mas o Palácio abriu a horas, entre salas de porcelana e trajes reais, alguns a precisar de um restauro bem profundo, no Museo de la vida en Palacio. Com os jardins fecharam também a Casa del Labrador, recém restaurada, e o Museo de Falúas Reales, com as galeotas e bergantins lá do sítio, que ficaram por ver e por comparar com as nossas do Museu de Marinha (que vão ter direito, por acaso, a um comentário depois).

Segui (com o GPS do iPhone a dar uma ajuda preciosa...), através das áridas e desgraçadas planícies de La Mancha (não admira que o Quixote tivesse perdido algum do juízo ao passar por aquelas bandas), para a capital dos Reis Católicos e do neto Carlos V, cidade imperial mas herdeira das culturas cristã, árabe e hebraica. Toledo é absolutamente monumental. Do Alcázar à Catedral, passando pelos El Greco por lá espalhados - como o celebrado Entierro del Señor de Orgaz - sem esquecer as antigas sinagogas, raras obras de arte na tão católica Espanha.

Só a Catedral vale muitas visitas, obra de arte sem fim, sem pudor de excessos, sem modéstias, a que o Primaz da Espanha não se pode entregar. Atrás não fica a antiga sinagoga que depois foi igreja de Santa María la Blanca, sublime, com os arcos brancos e a pedra clara a fazerem adivinhar uma presença divina, independentemente do credo. As vistas da cidade, quer do alto de alguma torre, ou das colinas em redor, são medievalmente deslumbrantes, com as torres arcaicas e os tons terra dos telhados a fazer crer que os séculos não passaram por ali. Mas passaram, e por lá estão os preços das entradas para nos fazerem recordar que é a moeda europeia que dá acesso à arte, que embriaga é certo, mas enriquece apenas num ou outro sentido.

O que encontrei ao regressar comentarei depois das fotos, junto com as previsões de uma inauguration histórica no Novo Mundo.

terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

In diebus Herodis regis

'Cum autem natus esset Iesus in Bethlehem Iudaeae in diebus Herodis regis, ecce Magi ab oriente venerunt Hierosolymam' (Mt 2)

falei no ano passado sobre os Reis, os Magos. Chegaram hoje outra vez. Baltasar, Gaspar e Melchior. Um dos três, acho que o Gaspar, já tem um bocado de super cola, mas são muitos anos de viagem, sujeitos a provações várias. Amanhã voltam à caixa, até Dezembro.

Ponta de São Lourenço

A Fajã dos Padres

De volta ao Funchal

S. Vicente e arrabaldes

Esplendores da Corte do Norte


Fireworks, The New Year



Muito bem se cantou na Sé





O Colégio e a Sé

Entre a canja com canela e o misterioso desaparecimento de São Vicente

Voltei do Funchal retemperado. As ameaças de intempérie só fizeram com que o sol e o bom tempo me soubessem ainda melhor. A visita começou culturalmente, com visitas à Igreja do Colégio e à Sé do Funchal. A Igreja do Colégio surpreende pela profusão decorativa, onde entre talha e pinturas, não resta quase um centímetro por decorar, e onde um Cristo inédito pende da cruz por apenas um braço! Na Sé Catedral davam-se graças por 2008, cantava-se o Te Deum de fim de ano, com direito a Governo Regional - AJJ incluído - ao tristemente célebre Presidente da Assembleia Legislativa, mas também a Altezas do continente, Duques, Infantes e Infantas... O Coro de Câmara da Madeira foi absolutamente brilhante.

A noite começou com um convite para a Meia Noite numa sagrada casa à beira dos Barreiros e a promessa de uma canja milagrosa - cujo segredo veio a ser canela, propriedade surpreendentemente afrodisíaca numa tão sacra sopa. À meia noite, o fogo, solene, exuberante, que me impressionou menos que há 2 anos, mas que permanece o que acho ser a melhor forma de começar o ano. As passas, os desejos da praxe, as fotos. A vista das irmãs é invejável: estou em crer que, com todo o champagne que sobrou, elas viram fogo de artifício nos três dias seguintes. Mas merecem, pela canja, deliciosa, a melhor que já comi; recolheram antes de começarem os filmes com bola encarnada, aparentemente típicos da noite de fim de ano depois dos programas de pseudo-humor e este ano dos pequenos cantores da TVI. Começaram então as festas, no Museu primeiro, no Instituto do Vinho depois, apertos dançados como nunca, Katy Perry com a multidão a fugir da chuva, única nestes dias.

Não foi a noite longa que poderia ter sido - as 6h foram o meu limite - porque na manhã do dia 1 esperava-me o carro alugado, autêntico canário em cor e pouco mais que isso em potência - mas cheio de estilo. De carro segui para norte, essa costa exuberantemente verde, cheia de pequenas quedas de água, de pequenas terras escondidas, de fajãs, lombos e lombadas. Em Ponta Delgada, antiga Corte do Norte (o livro da Agustina já está adicionado aos meus to read, e vai sair o filme com o mesmo nome), revi a obra de arte inesperada que é o tecto do Santuário do Bom Jesus. Estou certo de que esta amostra das glórias passadas desta Corte será considerada uma obra prima nos próximos séculos. É a primeira obra de tal envergadura que conheço, que combine elementos religiosos com a contemporaneidade no uso dos motivos, como as asas de borboleta com que foram brindados um par de anjos e a profusão de animais que polvilham o tecto, junto com elementos dos Descobrimentos e afins.

Nesse fim de tarde, começou nas Lombadas (a Iª, com direito a recepção oficial, e a IIª) a visita aos pontos de interesse desta costa norte, com mais conhecimento sobre as tradições das lapinhas madeirenses, os presépios de triguinho (na minha terra são Searinhas do Menino Jesus) e fruta. À noite, entre a continuada surpresa pelo tamanho e encanto do cemitério, o engenho das gavetas e o destino dos ossos, assisti uma vez mais ao extraordinário som do eco dos foguetes de gáudio pelo Novo Ano e pela festa do Bom Jesus, autêntico simulacro de bombardeamento pela Frota da Majestade Católica ou, se a houvesse, do Sultão de Marrocos. No dia seguinte, entre a embriaguez que as paisagens provocam e a surpresa por algumas decorações natalícias, passeámos por montes e vales, túneis e curvas turtuosas, vilas e aldeias, de São Vicente* a Boaventura, passando por São Jorge e a sua igreja de talha que alguém suposera no Arco, o Lombo do Urzal e outras cujo nome me escapa.

De regresso ao sul, e entre brisas maracujá sem fim (deliciosos, os produtos regionais) jantei a tradicional espetada no Estreito de Câmara de Lobos, com bolo do caco e milho frito, e planeei um novo e derradeiro dia, que começou com compras, encomendas várias e peças para o presépio que são raras e más no continente. Apesar de ter pensado visitar o Museu de Arte Sacra, acabei por seguir outros planos. Almocei na pitoresca Fajã dos Padres, antiga propriedade jesuíta, com sublimes aromas que não sei se eram de urze (confesso que não sei a que cheira) mas tinham lama à mistura, que a intempérie tinha deixado pelo caminho. Para lá chegar desci um elevador de mais de duas centenas de metros, qual Torre Eiffel de uma só vez!, sem apelo para vertigens mas com considerável segurança se tivermos em conta a amostra de elevador que se ergue ao lado, o antigo, que ainda funciona...

Depois do almoço e do passeio pelas vinhas dos padres, cruzei a Ilha e acabei por chegar à Ponta de São Lourenço, réstea de natureza na ponta mais industrializada do Arquipélago, para onde já fiz contratos quando era advogado. Caminhei, com as Desertas como cenário de fundo, pelos estreitos caminhos, subindo e descendo, fascinado com a paisagem, almejando o fim dos 3 kms anunciados, mas sem grande esperança de lá chegar em tempo útil. Não era só o anuncio da noite, mas o voo de regresso ao frio continente. Acabei por desistir e deixar para outra vez o passeio completo, para quando for descer as levadas. Mas voltei cada vez mais convencido de que, diga-se o que se disser, depois de Deus ter dado à Madeira os atributos naturais manifestamente únicos e não querendo com isto comparar quem quer que seja ao Criador, alguém fez daquela Ilha um local convictamente moderno, uma região de que Portugal tem de se orgulhar.

* Para quem é fã de novelas da TVI, na que se passa em São Vicente - e que foi gravada lá - desapareceu a imagem do santo. Não sei se para corroborar o roubo na ficção, a imagem do padroeiro tinha efectivamente desaparecido da igreja...

domingo, 4 de Janeiro de 2009

The Pearl...

O meu fascínio pela Pérola do Atlântico, a fabulosa Ilha da Madeira, não pára de crescer. Terra onde a tradição de cumpre em plena modernidade, onde o cosmopolita se alia com o castiço, onde o Natal é a sério e as lapinhas cogumelam pelas ruas, onde o ano começa de uma forma solenemente luminosa. Difícil é escolher entre fajãs de padres e canjas de freiras, a Corte do Norte e a Ponta de S. Lourenço, o bolo do caco e o de mel, a espetada e o filete de espada. Farei certamente um relato com fotos e mais pormenores, mas a primeira palavra deste novo ano tem de ser de enorme satisfação, por um início de ano perfeito e com votos de que todos tenham um excelente 2009!