domingo, 30 de Novembro de 2008

Hampton Court e as mulheres de Henrique VIII

Por falar de Henrique VIII e numa discreta tentativa de melhorar o número de posts deste mês nesta derradeira hora de Novembro, lembrei-me de uma história muito intrigante de há uns anos. Em Dezembro de 2003, uma câmara de segurança do Palácio de Hampton Court - que me falta visitar - apanhou uma imagem que ficou, até hoje, por esclarecer. O Palácio, residência de Henrique VIII e de grande parte das suas mulheres, é conhecido pelos seus "fantasmas", por sensações estranhas ao passar nos corredores, súbitas alterações de temperatura, sem razão aparente.

Nas imagens que vos deixo em filme, está mais que uma alteração de temperatura; antes uma imagem medieval com habilidade para fechar portas de segurança, como li comentado em algum sítio menos crédulo. O Times falou do assunto, relatando a história, com declarações de uma portavoz do Palácio que negava qualquer manufactura das imagens. Os cépticos dizem que os funcionários de Hampton Court se vestem de época frequentemente, mas o Palácio diz que não foi o caso...

Diz-se que um dos fantasmas é o da Rainha Jane Seymour, a terceira Rainha de Henrique e a primeira "dead" da mnemónica, que morreu 12 dias depois de dar à luz o futuro Rei Eduardo VI. Mas o fantasma mais conhecido é o da quinta Rainha de Henrique, a segunda "beheaded" da mnemónica: Catherine Howard, prima de Ana Bolena, sendo ambas sobrinhas do Duque de Norfolk. Catherine terá gritado por clemência pelos corredores do Palácio, em vão. Seria dela o fantasma que as câmaras captaram?

The Other Boleyn Girl

Esta semana vi The Other Boleyn Girl, grande nome que em português tão tipicamente deu o desastre de Duas Irmãs, Um Rei. Longe do esplendor de Elizabeth e da sequela The Golden Age, ou do Shakespeare in Love, é ainda assim aceitável. Foge subtilmente à verdadeira história de Maria Bolena, a irmã da Rainha Ana Bolena - segunda mulher de Henrique VIII, a do primeiro "beheaded" da mnemónica para ajudar a decorar as seis mulheres do célebre Rei inglês: "divorced, beheaded, died, divorced, beheaded, survived". Maria Bolena não seria o doce que Natalie Portman interpreta, antes alguém que a ambiciosa irmã passou para trás. Mesmo sem absoluto rigor histórico - que de resto também não existe nos filmes que citei e que é admitido nas breves biografias que vêm no DVD - é um bom filme.

De como Bombaim passou a Bombay para ser bombardeada como Mumbai; e outros bombardeamentos

Quando o Presidente da República visitou a Índia em Janeiro de 2007, achei estranha a referência à cidade de Mumbai... para mim, a antiga cidade portuguesa chamava-se Bombaim. Agora percebo que um tal governador dos anos 90 decidiu mandar esquecer o nome britânico herdado dos portugueses, Bombay, para o adequar ao guzerate e ao marato. E porquê e quando é que Bombaim passou a Bombay, quando é que deixou de ser portuguesa? Generosos que somos, em 1661 Bombaim foi no dote da Infanta D. Catarina de Bragança, quando partiu para Londres para se casar com o Rei Carlos II. Os ingleses não se lembraram de devolver Bombaim quando devolveram a Rainha D. Catarina em 1692, depois da morte de Carlos II e da Gloriosa Revolução. Foi Mumbai e não Bombaim que foi martirizada a semana passada. Curiosamente, nas últimas horas o nome Bombay voltou a aparecer nos jornais - reacção ocidental? O mais perturbador de toda a história dos atentados de Bombaim é que o que ali aconteceu poderia acontecer em qualquer cidade, em qualquer hotel.

A cobertura do ataque terrorista a Bombaim e do sequestro por piratas (piratas!) de um petroleiro no corno de África fez - uma vez mais - esquecer um drama com consequências muito mais devastadoras, que se passa também em África e que é mais um episódio das eternas tensões entre hutus e tutsis. Há umas semanas vi o Shooting Dogs, um excelente e duro filme sobre a Guerra no Ruanda, na linha do Hotel Ruanda, que vi há uns meses. Os dois filmes complementam-se e mostram uma mesma realidade, a da iniciativa e coragem individuais perante uma realidade brutal e dramática, de desconfiança e violência gratuita e irracional, perante a insuficiência e inactividade das forças internacionais e a ignorância da comunidade internacional. Era então a maioria hutu, a massacrar a minoria tutsi. As milícias hutu que se refugiaram na República Democrática do Congo estão agora a ser alvo de retaliação por milícias tutsi, embora isto seja uma enorme e inaceitável simplificação das coisas. Seja como for, independentemente de onde esteja a irracionalidade e a violência desta vez, certo é que uma vez mais milhares de pessoas morrem todas as semanas, e uma vez mais o mundo ignora.

Fazer comparações com os ataques em Bombaim vem talvez pouco a propósito. A verdade é que independentemente de ser perdida num hotel de 5 estrelas em Bombaim onde estão eurodeputados e turistas ou na selva do Kivu na RDCongo, uma vida deve ter para a comunidade internacional um valor sagrado. E quer-me parecer que a comunidade internacional pouco poderá fazer para prevenir ataques como os de Bombaim. Por outro lado, muito poderá ser feito para terminar mais um extermínio em massa, um genocídio, como o que se passou no Ruanda em 1994 ou para terminar uma guerra, a da RDCongo, que já cobrou milhões de vidas. De pouco servirá tanta prosa, mas enfim, alguma coisa tinha de escrever neste fim de mês.

Louvre à noite

Père Lachaise

Panteão e Saint-Étienne-du-Mont

sábado, 29 de Novembro de 2008

Ainda les lumières...

Passada mais uma semana, disponho-me a terminar a minha crónica de Paris, para falar então de Bombaim e de outros assuntos, que rasgam a actualidade. Começa esta segunda parte com a confissão de um estado de espírito: se não era bom antes de partir (apesar da breve melhoria que veio com o concerto dos Keane), ficou de rastos com o roubo da minha máquina e não melhorou muito no resto da viagem. A companhia de viagem terá suportado menos mal a minha cara de poucos amigos, com recurso a crepes de chocolate pelo bom humor calórico que transmitem. Mas o imagem do meu assalto perseguiu-me durante estes últimos dias, tudo o que mexia conseguia a minha atenção, tudo o que eram espaços vazios conseguiam a minha mudança ou hesitação de rumo, todos os que eram representantes do Maghreb conseguiam a minha desconfiança e o meu medo, não há porque não dizê-lo.

Destinos primeiros: a Torre Eiffel, terceiro andar, e Montmartre, com a cúpula e torre brancas a içarem-se sobre Paris, com alguma coisa de romântico e de surreal, com tudo o que uma basílica pode trazer de estranho a um bairro marcado pelo erotismo e a indústria pornográfica. Menos castiço, a criatura que cantava de maneira pouco brilhante para uma audiência na escadaria da basílica, em inglês, sem que nada se adequasse particularmente. Será isto Paris? Tenho dúvidas. Mas a audiência gostava, pelo que uma vez mais será o meu espírito o inadaptado - ainda assim, é com este espírito, inaptado e crítico, que viajo e comento.

Lembro-me agora que na véspera, antes de chegar ao Arco do Triunfo, ainda houve direito a uma breve passagem pelo Quartier Latin e a um longo passeio pelo Marais, que pouco conhecia e cujas ruas mais medievais que o resto cospomolita da cidade me impressionaram. Ia em busca da Place des Vosges, supostamente única, que me desapontou, talvez pela escuridão que a noite impunha. Voltarei, outra vez, de dia. Por ali fica um dos museus que deixo ainda por ver, o Carnavalet. E lembrei-me porque neste dia voltei ao Quartier Latin, para ver o Panteão, que tinha ficado por ver em todas as outras visitas, pelo seu carácter republicano e revolucionário, que entretanto aprendi a apreciar, sem que tal signifique adesão aos meios: acho que a evolução é necessária e boa, mas com uma transição pacífica, sem revoluções, que só atrasam e complicam. De resto, a Francesa, com tudo o que de significativo tem para a História da Humanidade, deixou, pelo seu carácter instável e sanguinário, marcas que tardaram em sarar na sociedade francesa.

O Panteão de Paris merece a visita. Construído por ordem de Louis XV para ser a igreja de Santa Genoveva, Padroeira de Paris, inspira-se na Catedral de São Paulo, em Londres. Foi Panteão antes de ser igreja, pois o edifício apenas ficou concluído em 1790, plena Revolução, tendo sido decidido que se sepultariam ali os franceses ilustres. Apenas com a Restauração de Louis XVIII e Carlos X, assume a função para o qual fora concebido, sem que tal significasse desalojar os ali sepultados. Do anticlerical Voltaire dirá Louis XVIII para deixarem os restos, que pelo menos teria como castigo ouvir missa todos os dias! Só voltou a Panteão com a Revolução de 1831, que destronou Carlos X e instalou no trono o Rei Louis Philippe, o filho de Philippe-Egalité - o Duque de Orléans que votara a morte do primo, o Rei Louis XVI, para ser ele próprio guilhotinado uns meses depois.

No centro da antiga igreja está o Pêndulo de Foucault, reconstituição do que Léon Foucault instalou no mesmo local em 1850 para provar o movimento rotativo da Terra. O edifício civil, narração da história de França, exaltação da Revolução e do Império, alberga na cripta os mais ilustres franceses, com grande destaque para os dois filósofos des Lumières, Rousseau e Voltaire. A visita vale a pena pela explicação e cronologia biográfica de todos os que mereceram as honras de Panteão, generais de Austerlitz, cardeais, duques, marqueses e condes do Império, médicos, poetas e filósofos. Os nomes mais sonantes: Pierre e Marie Curie, Jean Monnet, Victor Hugo, Alexandre Dumas e Émile Zola.

Ali ao lado, está a fabulosa Igreja de Saint-Étienne-du-Mont, onde repousa o sarcófago de Santa Genoveva, porque os restos foram queimados em público durante o Reinado do Terror do senhor Robespierre, na mesma altura em que rolaram as cabeças reais sob o cadafalso. A igreja - com características únicas em Paris - faz lembrar as catedrais inglesas, com uma entrada para o Coro esculpida em pedra, com uma escada em espiral a cada lado. Se a nave e o Coro se apresentam num gótico tardio e exuberante, a entrada do Coro e as escadas remetem para o Renascimento, para os tempos do grande rival de Henrique VIII de Inglaterra, François I. Daí desci, passeando pelo Quartier Latin, e anda entrei na Igreja de Saint-Séverin, a mais antiga da Rive Gauche.

O último dia foi o de mais novidades. Começou na esquadra do VIIIe arrondissement, em pleno Grand Palais, onde estava a quarta exposição de Picasso da cidade. De queixoso voltei a turista, à descoberta de um museu recomendado e óptimo, o Jacquemart-André, onde estava uma exposição de um dos mestres do retrato, o holandês Antoon van Dyck. Mas o museu vale mais pela casa burguesa, onde a sociedade do final do século XIX se reunia à volta de uma óptima colecção de arte, entre Rembrandt, Tiepolo, Botticelli, Canaletto e David, que o casal anfitrião mostrava aos seus convidados. A tarde começou no Musée Guimet, de artes asiáticas, cheio de budas indianos, tailandeses e cambodjanos, de porcelanas chinesas e biombos japoneses. Demasiado para o meu gosto europeu.

Depressa deixei os budas, para rumar a outra novidade, uma especial, com um tanto de único, o famoso Cemitério do Père-Lachaise, que recebeu o nome do dono das terras onde foi criado, o Père de La Chaise, confessor do Rei Louis XIV. Napoleão ordenou a construção dos cemitérios fora dos limites da cidade. Entre esses, este no leste pobre da cidade, inaugurado com uma trasladação em 1804, não tinha mais de um curto milhar de residentes em 1817, ano em que a Câmara decide trasladar para lá celebridades como os apaixonados Abelardo e Heloísa, o La Fontaine das fábulas, o Molière das peças e o Cyrano de Bergerac. E assim passaram a muitos mais: 15 anos depois, eram já 33.000 os residentes do mais popular cemitério de Paris.

Ali estão sepultadas celebridades dos séculos XIX e XX: Balzac, Beaumarchais, Bernhardt, Chopin, David, Delacroix, Masséna, Murat, Morrison, Piaf, Proust, Wilde. Não vi todos, não tive tempo. Mas o mais fascinante do Père-Lachaise é o desordenamento do território mais antigo, o musgo a cobrir os túmulos, a espectacularidade de alguns destes, a sobriedade de outros, obras de arte, competição até à morte. Em vez de musgo, o túmulo de Wilde está coberto de... baton, de centenas de beijos. Um pouco incogruente, tendo em conta a história pessoal do senhor. Depois são estátuas, pedras, o chão coberto de folhas, um museu diferente - com um óptimo site e com visitas guiadas e romarias, em honra de Piaf, de Morrison, de Chopin. Ganha a música, nas flores.

E a minha visita a Paris terminou com um passeio pelas arcadas do Palais Royal, na Pirâmide do Louvre, depois nas Tuileries e finalmente, pelos Champs Elysées, rumo à casa achinesada, por uma última vez. Resumindo, está melhor, a cidade des Lumières; recomenda-se.

domingo, 23 de Novembro de 2008

Azul em estrelas...

Porque não me roubaram o iPhone, há testemunho da Torre Eiffel vestida em azul e estrelas. Aliás, a última foto foi tirada meros segundos antes do fatídico assalto.

sábado, 22 de Novembro de 2008

Ah... les lumières...

Já lá vão uns dias que regressei de Paris. Desta vez, a falta de relato não fica a dever-se a nenhum período de especial fadiga resultado das longas caminhadas nas ruas da grande metrópole ou no parque de Versailles, nem a um período de introspecção particularmente profunda. Antes à indecisão do que escrever. Imaginava, quando em Versailles, que estas crónicas de Paris, que assim se não chamam, seriam ilustradas com um fulgor fotográfico único, ou pelo menos novo, uma verdadeira exposição fotográfica, apanágio de uma nova máquina, que por aqui marcou presença - breve - com as fotos medievais, dos tempos da Rainha Santa. Mas, os homens não quiseram que assim fosse. Estava eu, solitário nas margens do Sena, a apreciar o enfarpelamento europeu da célebre torre de Gustav Eiffel, quando o Maghreb ali chegado me interpelou, agarrou caracóis e empurrou e me deixou sem a máquina, angustiado, sem as fotos - tantas e tão boas - que deveriam agora aqui estar, a ilustrar uma crónica que não teria nada de mais dramático que os lustres de Versailles, o esplendor do Louvre e a espectacularidade do Musée d'Orsay.

Começou descronologicamente, este relato. Da casa, atipicamente achinesada, cheia de bom gosto minimalista, em solo rangente de antigo - não velho, com vista ainda para o cimo da tal torre, culpada do amargo desta crónica, não direi mais que isto: era perfeita. Comecei, pois, do centro, o meu passeio, de perto das lojas da Avenue Montaigne, do bulir matinal dos Champs Elysées, deixando para trás a celebridade, lusa, também com o seu quê de minimalista, que se incluiu nos planos para logo desaparecer, tão rapidamente como surgira. Estarei atento para ver de mim menção, honrosa talvez, ou não.

Voltei, ao fim de onze anos, ao Musée d'Orsay. Tinha lá estado no dia que fiz 16, numa altura em que já a arte me interessava, mas em que o meu gosto era, percebo hoje, profundamente limitado. Consigo, hoje, gostar de quase tudo o que gostava na altura, mas saí da antiga gare convencido que a arte moderna já não é o mistério que me estagnava o cérebro em 1997, quando não percebia as razões daquela disformidade tão pouco natural das situações e das pessoas. Ainda há muito caminho a percorrer, ainda os há que não percebo, que francamente não gosto, apesar dos louvores gerais. Mas até a gare ganhou aos meus olhos, nem dela me lembrava, cenário único o deste museu mais novo que eu. As exposições permanentes (excepção feita à dos pastéis, não de nata nem de Belém, óptima, por sinal) rodam, como em Paris inteiro!, à volta de Picasso, que teima em continuar na moda.

Dali ao Louvre, quase igual desde que o conheço, de um ano antes que o d'Orsay, mas que teve direito a tantas visitas como as da cidade. Rendido também ele a Picasso, para fúria de ses amis, estava cheio, pelo menos junto às obras de renome. Os japoneses são, eles próprios, uma atracção - a forma desenfreada como fotografam as obras e como se movimentam em grupos, é digna de um momento de pausa em qualquer visita guiada. Tirei-lhes fotos, quais Vénus de Milo, quais Gioconda e fiz-me fotografar diante do esplendor de David, num dos meus quadros preferidos, a coroação da Tascher de La Pagerie por seu marido. Alas... E terminou esse dia com um chocolate, quente, o melhor que alguma vez bebi, da collection da Häagen Dazs, ali ao lado, nos Champs Elysées.

O dia seguinte, Sábado, lá vai já uma semana, terminaria com a intervenção maghrebina que descrevi ao começar estas linhas, longas vão já. Mas começou em Versailles, onde Louis XIV, Roi-Soleil, Louis le Grand, o tal dos tacões altos que inspiraram, estou certo, a marca favorita da BSC, instalou a sua Corte, no ido ano de 1682, mais de um século antes da Revolução que traria de volta a Paris, protegido do Terceiro Estado que almejava deixar de o ser, o seu tetraneto, Louis XVI. Li, no comboio, que no lugar onde o último Rei dos Franceses, Louis-Philippe, instalou a estátua do Rei Sol, se encontrava antes um segundo portão, que separava o Pátio Real do Pátio dos Ministros. Vi ao chegar, com alguma surpresa, que a estátua desaparecera e que em seu lugar está um recém-construído e esplendorosamente dourado portão e sua grade, com todas as flores de lis e coroas da praxe, Versailles reconstituído à antiga glória.

Versailles foi onde notei algumas das maiores diferenças, desde a minha última visita, há 5 anos. Ainda a terminar os restauros no telhado, está cada vez melhor, com uma visita muito bem organizada, pontilhada estes meses com as obras pouco ortodoxas de Jeff Koons, das quais a mais adequada é o busto prateado de Louis XIV e a mais impressionante talvez a lagosta pendurada do tecto do Salon de Mars, em vez do par do lustre que resta. Mas tudo está hoje em grande esplendor, desde a capela, aos quartos, passando pela impressionante Galerie des Glaces e pelos aposentos do Delfim. Depois os jardins, muito mais arranjados que quando os vi da última vez, o Grand Trianon e finalmente o ponto alto da visita actual: o recém restaurado Petit Trianon, os seus jardins e o Hameau de la Reine. Pequeno, sóbrio e elegante, o Trianon destaca-se como um refúgio, ainda cortesão, onde o Hameau é o refúgio campestre por excelência, o contrapeso radical do Palácio, mas sem ser revolucionário, porque se sente que ali era campesina a realeza, a Antoinette. No parque, fechado, que rodeia o Trianon e o Hameau de la Reine, tirarão todos os que seguirem o meu conselho de visita, fotos tão fantásticas quanto as minhas, roubadas.

Nesse dia, que termina este primeiro relato - que a minha vida não é só isto! - ainda subi ao Arco do Triunfo, que tantas glórias de França viu passar, a minha vista preferida de Paris. Foi lá que começou o meu roubo, ao avistar a bandeira europeia vestida de Torre Eiffel, num resultado perfeito para marcar a Presidência Francesa da União, motivo instigador da minha visita. Foi na busca de outra imagem, como essa, melhor talvez, que parti de bateria recarregada, para voltar sem alento, à casa achinesada e escrever as minhas mágoas, de estúpido e imprudente. Enfim, voltarei, se Deus quiser, para fotografar tudo outra vez.

quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

This life, is lived in perfect symmetry...

Muito, muito bom o concerto dos Keane, esta noite, no Coliseu dos Recreios. Óptimo presente de anos - com o delay da praxe, porque sabe bem ir recebendo presentes ao longo do ano. Desde o primeiro álbum que sou fã, mas não os imaginava tão bons em palco, nem tão boa a voz do vocalista, de quem confesso que nem sei o nome e a estas horas não me apetece ir ver. Cantámos - estava cheio o Coliseu - quase todas as músicas do primeiro álbum, muitas do segundo e quase nenhumas do novo... mas há músicas muito boas neste novo, que vou comprar. Enfim, gostei muito, cantei muito e só não saltei porque estava confortavelmente sentado. E amanhã, que já é hoje, Paris.

sábado, 8 de Novembro de 2008

Dos tempos da Rainha Santa

Cheguei ligeiramente atrasado. Estava à espera de um concerto vazio de público, como habitualmente. Mas não. A minha igreja, medieval e solene, estava impressionante, mais cheia que na missa de Domingo, brilhantemente iluminada, com as colunas e os capitéis a destacar. Ao fundo continuavam, como nas últimas semanas, as armas da Rainha Santa Isabel, partidas, de Portugal e de Aragão. Era o fim das comemorações dos 700 anos da doação das "terras de Atougya" por D. Dinis a sua mulher, D. Isabel de Aragão.

Foi presente da Rainha Santa a Natividade esculpida na pedra que era, até ao restauro dos anos 70, frontal de um altar lateral, que está numa foto em baixo. Segundo a lenda, a fissura que tem, de alto a baixo, foi provocada por um raio, na presença da sua nora e sucessora no trono, a Rainha D. Beatriz, mulher de D. Afonso IV, que rezava por uma cura para uma doença de seu filho, o futuro D. Pedro I, alojado no Castelo ali ao lado. A lenda diz ainda que D. Pedro ficou curado nesse dia.

O concerto, pelo Coral Vértice - composto por elementos masculinos do Coro Gulbenkian - foi brilhante. Longe da habitual polifonia renascentista e barroca, apresentaram peças medievais não apenas religiosas, que soaram ainda mais medievais pelos séculos de pedra esculpida que as envolviam. Terminou com discursos, por vezes demasiado longos e demasiado inócuos, e com o feliz anúncio de que uma estátua da Rainha Santa vai ocupar um lugar digno, no jardim ao lado da igreja, que espera requalificação desde que foi feito. E voltei eu, a pé em defesa do ambiente, Rua Direita acima, para casa.

The hope of a skinny kid with a funny name who believes that America has a place for him, too.

Estava a ler a crónica da Teresa de Sousa do Público do dia seguinte à vitória de Obama e não resisti a ir ver o discurso do futuro Presidente dos Estados Unidos na Convenção Democrata de 2004, que nomeou John Kerry como candidato e que foi o salto do Senador do Illinois para a fama nacional. As suas qualidades como orador são mais que notórias.

O relativamente desconhecido Senador começa com a sala inteira com o nome escrito nos cartazes, mas acaba com a sala em uníssono a gritar o nome dele - com Hillary Clinton e Jesse Jackson a aplaudir de pé. O discurso é brilhante, vale por anos de experiência política. Barack Obama apresenta-se ao mundo, apresenta a sua ascendência e, quase no fim, resume a sua audácia, a audácia da esperança: "the hope of a skinny kid with a funny name who believes that America has a place for him, too." E tinha!

sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Presidente Eleito

Algumas capas de jornais do dia a seguir à eleição de Obama.

quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

For that is the true genius of America - that America can change.

O discurso de derrota de John McCain foi bom, ainda que rodeado de apoiantes ressabiados. O discurso de vitória do Presidente Barack Obama não foi o melhor que lhe ouvi, mas foi mais uma prova das suas capacidades como orador. Destaco dois parágrafos:

"And to all those who have wondered if America's beacon still burns as bright - tonight we proved once more that the true strength of our nation comes not from the might of our arms or the scale of our wealth, but from the enduring power of our ideals: democracy, liberty, opportunity, and unyielding hope.
(...)
"This is our chance to answer that call. This is our moment. This is our time - to put our people back to work and open doors of opportunity for our kids; to restore prosperity and promote the cause of peace; to reclaim the American Dream and reaffirm that fundamental truth - that out of many, we are one; that while we breathe, we hope, and where we are met with cynicism, and doubt, and those who tell us that we can't, we will respond with that timeless creed that sums up the spirit of a people: Yes We Can."

A História

Estou acordado, porque gosto de presenciar a história. E hoje, há 10 minutos atrás, fez-se história. Barack Obama foi declarado Presidente eleito dos Estados Unidos da América, o primeiro negro a ocupar o cargo, num país, num mundo!, tão marcado pelas divisões raciais. Independentemente do que venha a fazer como Presidente, e eu espero que faça muito, independentemente das diferenças na política em relação a Bush e aos anteriores presidentes, independentemente da nova imagem que a mera eleição projecta da América, a eleição de Obama é um momento de viragem na história da humanidade, que pode assim começar a virar essa página tão difícil e tão marcante das divisões e dos precoceitos raciais.

terça-feira, 4 de Novembro de 2008

A última curva...

No Domingo, num final absolutamente emocionante, Lewis Hamilton tornou-se o primeiro negro a ganhar o Mundial de Pilotos de Fórmula 1. Foram geniais aqueles últimos segundos, em que Hamilton conseguiu passar, na última curva!, para 5.º lugar e assegurar os pontos necessários para se manter no primeiro lugar da classificação.

Hoje é a histórica última curva das eleições americanas, mas com um aroma especial a história do Mundo. Se, como as sondagens indicam, o Senador Barack Obama ganhar, não é apenas o primeiro negro na Casa Branca, a comandar o Mundo; é a prova de que, com carisma, determinação e vontade de mudar, mesmo os desfavorecidos e unlikely, que vêm de fora do sistema, conseguem chegar longe, muito longe.

Há uns meses estava farto de primárias e torcia por Hillary Clinton. Hoje, perfeitamente rendido a Obama, espero que as sondagens não se enganem, que não haja o tal efeito Bradley - que levaria os brancos a dizer que votam num negro, mas a votar num branco na hora da verdade - e que não haja uma surpresa. Que Obama ganhe e que seja investido a 20 de Janeiro, que possa, efectivamente, melhorar os Estados Unidos e o Mundo. Não é apenas mudar. Tem de melhorar.

domingo, 2 de Novembro de 2008

John McCain no Saturday Night Live

Muito, muito bom.


sábado, 1 de Novembro de 2008

Pão por Deus

Hoje é dia de Pão por Deus. Dia de quê?, perguntarão alguns dos certamente poucos, cada vez menos e menos ávidos leitores deste blog. Dia de Pão por Deus. Já percebi que não é uma tradição nacional; será antes regional - ainda que a Wikipédia portuguesa a mencione. Não sei se é antiga por cá sequer, a dita tradição. Mas parece-me a versão católica do "trick-or-treating" profano da véspera, que também começa a ser popular por estas bandas, que até abóboras com velas dentro ontem havia às portas aqui da vila.

Mas numa pequena e rápida pesquisa, descobri que foi provavelmente o Dia das Bruxas que assimilou o antigo costume de pedir pelas ruas no Dia de Todos os Santos e que afinal esta é uma tradição bem antiga, que na Inglaterra medieva se chamava "souling", porque os "soul cakes" eram os bolos que as crianças e os mendigos pediam de porta em porta, para comerem no dia seguinte, Dia de Finados. Por cada bolo comido, uma alma saía do purgatório. Pela descrição assemelham-se às broas que a minha mãe sempre faz nesta altura. Só este fim-de-semana já livrei pelo menos 4.

Às 9h, esta manhã, já a campainha tocava. Noutros tempos também, por essa hora, ia eu de porta em porta, num pequeno grupo, recebendo rebuçados, chocolates, broas e às vezes dinheiro, gastando-se este e ficando muitas vezes o resultado não pecuniário sujeito ao abandono no saco, que a gula nunca durava muito. A melhor história de que me lembro é a de uma senhora já velhota, ali de baixo, que, vendo o grupo de 5 ou 6, me deu uma moeda de 2$50 (dois e quinhentos, como se dizia) e me disse para eu dividir com os outros.

O que fico feliz de ver é que é uma tradição que se cumpre, e cada vez mais. No meu tempo de ir ao Pão por Deus éramos poucos e sempre cada vez menos. Pelos da minha idade era mal visto cumprir tradições como esta, de ir pela vila, de porta em porta, de fazer coisas que os pais tinham feito, de ser de alguma forma conservador e tradicional. Eu ia sempre. Hoje quase todos os miúdos vão, cada vez mais com graúdos a acompanhar. Mas ainda bem que vão.