Passada mais uma semana, disponho-me a terminar a minha crónica de Paris, para falar então de Bombaim e de outros assuntos, que rasgam a actualidade. Começa esta segunda parte com a confissão de um estado de espírito: se não era bom antes de partir (apesar da breve melhoria que veio com o concerto dos Keane), ficou de rastos com o roubo da minha máquina e não melhorou muito no resto da viagem. A companhia de viagem terá suportado menos mal a minha cara de poucos amigos, com recurso a crepes de chocolate pelo bom humor calórico que transmitem. Mas o imagem do meu assalto perseguiu-me durante estes últimos dias, tudo o que mexia conseguia a minha atenção, tudo o que eram espaços vazios conseguiam a minha mudança ou hesitação de rumo, todos os que eram representantes do Maghreb conseguiam a minha desconfiança e o meu medo, não há porque não dizê-lo.
Destinos primeiros: a Torre Eiffel, terceiro andar, e Montmartre, com a cúpula e torre brancas a içarem-se sobre Paris, com alguma coisa de romântico e de surreal, com tudo o que uma basílica pode trazer de estranho a um bairro marcado pelo erotismo e a indústria pornográfica. Menos castiço, a criatura que cantava de maneira pouco brilhante para uma audiência na escadaria da basílica, em inglês, sem que nada se adequasse particularmente. Será isto Paris? Tenho dúvidas. Mas a audiência gostava, pelo que uma vez mais será o meu espírito o inadaptado - ainda assim, é com este espírito, inaptado e crítico, que viajo e comento.
Lembro-me agora que na véspera, antes de chegar ao Arco do Triunfo, ainda houve direito a uma breve passagem pelo Quartier Latin e a um longo passeio pelo Marais, que pouco conhecia e cujas ruas mais medievais que o resto cospomolita da cidade me impressionaram. Ia em busca da Place des Vosges, supostamente única, que me desapontou, talvez pela escuridão que a noite impunha. Voltarei, outra vez, de dia. Por ali fica um dos museus que deixo ainda por ver, o Carnavalet. E lembrei-me porque neste dia voltei ao Quartier Latin, para ver o Panteão, que tinha ficado por ver em todas as outras visitas, pelo seu carácter republicano e revolucionário, que entretanto aprendi a apreciar, sem que tal signifique adesão aos meios: acho que a evolução é necessária e boa, mas com uma transição pacífica, sem revoluções, que só atrasam e complicam. De resto, a Francesa, com tudo o que de significativo tem para a História da Humanidade, deixou, pelo seu carácter instável e sanguinário, marcas que tardaram em sarar na sociedade francesa.
O
Panteão de Paris merece a visita. Construído por ordem de Louis XV para ser a igreja de Santa Genoveva, Padroeira de Paris, inspira-se na Catedral de São Paulo, em Londres. Foi Panteão antes de ser igreja, pois o edifício apenas ficou concluído em 1790, plena Revolução, tendo sido decidido que se sepultariam ali os franceses ilustres. Apenas com a Restauração de Louis XVIII e Carlos X, assume a função para o qual fora concebido, sem que tal significasse desalojar os ali sepultados. Do anticlerical Voltaire dirá Louis XVIII para deixarem os restos, que pelo menos teria como castigo ouvir missa todos os dias! Só voltou a Panteão com a Revolução de 1831, que destronou Carlos X e instalou no trono o Rei Louis Philippe, o filho de Philippe-Egalité - o Duque de Orléans que votara a morte do primo, o Rei Louis XVI, para ser ele próprio guilhotinado uns meses depois.
No centro da antiga igreja está o Pêndulo de Foucault, reconstituição do que Léon Foucault instalou no mesmo local em 1850 para provar o movimento rotativo da Terra. O edifício civil, narração da história de França, exaltação da Revolução e do Império, alberga na cripta os mais ilustres franceses, com grande destaque para os dois filósofos des Lumières, Rousseau e Voltaire. A visita vale a pena pela explicação e cronologia biográfica de todos os que mereceram as honras de Panteão, generais de Austerlitz, cardeais, duques, marqueses e condes do Império, médicos, poetas e filósofos. Os nomes mais sonantes: Pierre e Marie Curie, Jean Monnet, Victor Hugo, Alexandre Dumas e Émile Zola.
Ali ao lado, está a fabulosa Igreja de Saint-Étienne-du-Mont, onde repousa o sarcófago de Santa Genoveva, porque os restos foram queimados em público durante o Reinado do Terror do senhor Robespierre, na mesma altura em que rolaram as cabeças reais sob o cadafalso. A igreja - com características únicas em Paris - faz lembrar as catedrais inglesas, com uma entrada para o Coro esculpida em pedra, com uma escada em espiral a cada lado. Se a nave e o Coro se apresentam num gótico tardio e exuberante, a entrada do Coro e as escadas remetem para o Renascimento, para os tempos do grande rival de Henrique VIII de Inglaterra, François I. Daí desci, passeando pelo Quartier Latin, e anda entrei na Igreja de Saint-Séverin, a mais antiga da Rive Gauche.
O último dia foi o de mais novidades. Começou na esquadra do
VIIIe arrondissement, em pleno Grand Palais, onde estava a quarta exposição de Picasso da cidade. De queixoso voltei a turista, à descoberta de um museu recomendado e óptimo, o
Jacquemart-André, onde estava uma exposição de um dos mestres do retrato, o holandês Antoon van Dyck. Mas o museu vale mais pela casa burguesa, onde a sociedade do final do século XIX se reunia à volta de uma óptima colecção de arte, entre Rembrandt, Tiepolo, Botticelli, Canaletto e David, que o casal anfitrião mostrava aos seus convidados. A tarde começou no Musée Guimet, de artes asiáticas, cheio de budas indianos, tailandeses e cambodjanos, de porcelanas chinesas e biombos japoneses. Demasiado para o meu gosto europeu.
Depressa deixei os budas, para rumar a outra novidade, uma
especial, com um tanto de único, o famoso
Cemitério do Père-Lachaise, que recebeu o nome do dono das terras onde foi criado, o Père de La Chaise, confessor do Rei Louis XIV. Napoleão ordenou a construção dos cemitérios fora dos limites da cidade. Entre esses, este no leste pobre da cidade, inaugurado com uma trasladação em 1804, não tinha mais de um curto milhar de residentes em 1817, ano em que a Câmara decide trasladar para lá celebridades como os apaixonados Abelardo e Heloísa, o La Fontaine das fábulas, o Molière das peças e o Cyrano de Bergerac. E assim passaram a muitos mais: 15 anos depois, eram já 33.000 os residentes do mais popular cemitério de Paris.
Ali estão sepultadas celebridades dos séculos XIX e XX: Balzac, Beaumarchais, Bernhardt, Chopin, David, Delacroix, Masséna, Murat, Morrison, Piaf, Proust, Wilde. Não vi todos, não tive tempo. Mas o mais fascinante do Père-Lachaise é o desordenamento do território mais antigo, o musgo a cobrir os túmulos, a espectacularidade de alguns destes, a sobriedade de outros, obras de arte, competição até à morte. Em vez de musgo, o túmulo de Wilde está coberto de... baton, de centenas de beijos. Um pouco incogruente, tendo em conta a história pessoal do senhor. Depois são estátuas, pedras, o chão coberto de folhas, um museu diferente - com um óptimo site e com visitas guiadas e romarias, em honra de Piaf, de Morrison, de Chopin. Ganha a música, nas flores.
E a minha visita a Paris terminou com um passeio pelas arcadas do Palais Royal, na Pirâmide do Louvre, depois nas Tuileries e finalmente, pelos Champs Elysées, rumo à casa achinesada, por uma última vez. Resumindo, está melhor, a cidade des Lumières; recomenda-se.