segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Ainda o Porto

Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto

Estive no Porto, pela quarta vez este ano, mas pela primeira vez com tempo para visitar uma cidade que vergonhosamente desconhecia quase por completo e que me fascina mais de cada vez que volto. Fui em óptima companhia. Não podia ter comido melhor: entre as francesinhas do Capa Negra, a salada de caranguejo do Homem do Leme e o creme de castanhas/salada de pato fumado do Cafeína. Perfeito.

No último dia passei pelas ruas castiças e conheci finalmente alguns dos monumentos da cidade, como a fabulosa Igreja de São Francisco, um dos poucos monumentos em Portugal que me impressionou alguma vez. Curiosamente, no ano passado, quando votei nas 7 Maravilhas de Portugal, votei na Igreja de S. Francisco, sem conhecer. Vi agora que votei bem. Absoluta obra prima do barroco português, merece todas as visitas. Passei na Sé e nos Clérigos. Não entrei no Majestic.

Almoçámos em Leça, as melhores tapas que comi na vida, no Don Juan. À tarde fui à Serra do Pilar, para cumprir a música do Rui Veloso e ver o Porto, de Gaia. E fiquei cheio de vontade de voltar.


A campanha republicana

Depois de uns dias de intervalo, dos quais vai haver umas fotos, fica o resumo da campanha republicana, num cartoon do Times.

domingo, 19 de Outubro de 2008

Sarah Palin no Saturday Night

E, finalmente, cruzaram-se. Sarah Palin foi ao Saturday Night Live da NBC. Não esteve mal, mas podia ter tido mais graça. Há outro momento da presença online, o rap de Palin.

sábado, 18 de Outubro de 2008

Nós, nas agências

Festa do tratado

E assim se ensaia uma foto de família...

Imagens da Presidência V - Um ano de Tratado de Lisboa!

Há um ano atrás o Tratado de Lisboa tomava forma e com ele o sucesso da Presidência Portuguesa da União Europeia. O Conselho Europeu de Lisboa (ou, propriamente, a Cimeira Informal de Lisboa - Sessão da Conferência Intergovernamental) foi um sucesso inédito, foi uma surpresa para todos os que cá vieram e ficaram maravilhados com a nossa capacidade de organizar de imaginar uma verdadeira cidade de delegações, em pleno Pavilhão Atlântico no Parque das Nações. Logisticamente brilhante, com um bom ambiente insuperável e um sucesso político enorme.

O que ficou como imagem desse dia, 18 de Outubro de 2007, foi a tensão latente ante a aprovação do novo tratado da União Europeia, as conversações, as reuniões que não estavam anunciadas (uma star que irrompe na sala onde o twin se levanta surpreendido), as saídas da sala (incluídas as desnecessárias, como a de um pobre português conduzido por outro, infinitamente menos importante e mais pobre, corredores fora, escadas abaixo, escadas acima, para descobrir, com ele, a inutilidade do esforço), as inconfidências. E, já bem entrada a noite, a festa, o champagne, os abraços e os parabéns. Os gémeos Kaczynski tinham cedido, Habemus Tratado de Lisboa!, mandei eu sms a vários amigos.

A noite acabava "porreira, pá!". Era a frase do dia, quase do ano - não fosse o "por qué no te callas?" de Sua Majestade uns dias depois. O Tratado saíra. Lisboa dava-lhe nome e a 13 de Dezembro seria assinado, no Mosteiro dos Jerónimos, estórias que já contei. Nesse noite haveria direito a fotos de púlpito, então inéditas, depois multiplicadas! Depois mochilas, que de roubadas se multiplicaram e no fim sobraram. No dia seguinte, olheiras q.b., para receber todos os mesmos que tinham estado na véspera, rumores de que tudo estava prestes a ser reaberto pelo gémeo bom, sob ordens do gémeo mau. Nada disso, acabamos até sem almoço e de volta, rápido!, ao ministério, onde se avizinhavam horas difíceis, o senhor do Kremlin a chegar dali por dias!

Washington Post

E, finalmente, o "endorsement" do Washington Post, tudo muito no mesmo tom, ainda mais laudatório de McCain (excepto com Palin, que nem sequer é nomeada no texto e fica pela qualificação de "his irresponsible selection of a running mate who is not ready to be president") que os outros dois, até com elogios a Bush. Mas termina da seguinte forma:

"ANY PRESIDENTIAL vote is a gamble, and Mr. Obama's résumé is undoubtedly thin. We had hoped, throughout this long campaign, to see more evidence that Mr. Obama might stand up to Democratic orthodoxy and end, as he said in his announcement speech, "our chronic avoidance of tough decisions."

"But Mr. Obama's temperament is unlike anything we've seen on the national stage in many years. He is deliberate but not indecisive; eloquent but a master of substance and detail; preternaturally confident but eager to hear opposing points of view. He has inspired millions of voters of diverse ages and races, no small thing in our often divided and cynical country. We think he is the right man for a perilous moment. "

Chicago Tribune

Outro jornal que faz história nos EUA, apoiando pela primeira vez um candidato democrata desde 1847, ano em que foi fundado. O editorial do Chicago Tribune não é tão entusiástico como o do LA Times e salienta dois pontos semelhantes: o elogio ao Senador John McCain como político sério e dedicado - que no entanto, na opinião dos dois jornais, falhou clamorosamente na campanha ao não se descolar de algumas políticas de George Bush e ao escolher a Governadora Sarah Palin para candidata a vice-presidente - e a desconfiança face à política económica do Senador Obama. Mas o "endorsement" é histórico. Salienta as virtudes de Obama como conciliador e qualifica-o como alguém que não foge aos combates difíceis.

"Many Americans say they're uneasy about Obama. He's pretty new to them.
"We can provide some assurance. We have known Obama since he entered politics a dozen years ago. We have watched him, worked with him, argued with him as he rose from an effective state senator to an inspiring U.S. senator to the Democratic Party's nominee for president.
"We have tremendous confidence in his intellectual rigor, his moral compass and his ability to make sound, thoughtful, careful decisions. He is ready.
(...)

"Obama is deeply grounded in the best aspirations of this country, and we need to return to those aspirations. He has had the character and the will to achieve great things despite the obstacles that he faced as an unprivileged black man in the U.S.
"He has risen with his honor, grace and civility intact. He has the intelligence to understand the grave economic and national security risks that face us, to listen to good advice and make careful decisions."

LA Times

O Los Angeles Times, num brilhante editorial, oficializou hoje o apoio ao Senador Barack Obama na corrida para a Presidência dos Estados Unidos da América. Vale a pena ler, mas ficam uns excertos:

"It is inherent in the American character to aspire to greatness, so it can be disorienting when the nation stumbles or loses confidence in bedrock principles or institutions. That's where the United States is as it prepares to select a new president. (...)

"The Times without hesitation endorses Barack Obama for president. Our nation has never before had a candidate like Obama, a man born in the 1960s, of black African and white heritage, raised and educated abroad as well as in the United States, and bringing with him a personal narrative that encompasses much of the American story but that, until now, has been reflected in little of its elected leadership. The excitement of Obama's early campaign was amplified by that newness. But as the presidential race draws to its conclusion, it is Obama's character and temperament that come to the fore. It is his steadiness. His maturity.
(...)

"Indeed, the presidential campaign has rendered McCain nearly unrecognizable. His selection of Sarah Palin as his running mate was, as a short-term political tactic, brilliant. It was also irresponsible, as Palin is the most unqualified vice presidential nominee of a major party in living memory. The decision calls into question just what kind of thinking -- if that's the appropriate word -- would drive the White House in a McCain presidency. Fortunately, the public has shown more discernment, and the early enthusiasm for Palin has given way to national ridicule of her candidacy and McCain's judgment.
(...)

"We may one day look back on this presidential campaign in wonder. We may marvel that Obama's critics called him an elitist, as if an Ivy League education were a source of embarrassment, and belittled his eloquence, as if a gift with words were suddenly a defect. In fact, Obama is educated and eloquent, sober and exciting, steady and mature. He represents the nation as it is, and as it aspires to be."

sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

A vitória de McCain

Ontem à noite, no jantar de gala da Fundação Alfred E. Smith (o Al Smith Dinner), o Senador John McCain ganhou. Estava mais bem vestido - alguém faz o favor de dizer ao Senador Obama que a casaca se usa com camisa de colarinhos quebrados?; até conheço uns desenhos que se podem enviar para a Casa Branca - e teve muito mais graça que o Senador Barack Obama. Não sabia desta tradição deste jantar de gala que tem lugar todos os anos e que, de 4 em 4, calha em vésperas das eleições. O homem que deu nome à Fundação foi ele próprio um candidato democrata, que perdeu as presidenciais.

Obama teve graça, mas McCain teve muito mais. Na parte séria, no entanto, o discurso de Obama foi muito melhor. E como não podia deixar de ser - isto não pára - a meio deles estava um Cardeal :-). Só faltava mesmo descobrir-se que um dos gémeos Kaczynski era o célebre cardeal in pectore para isto ficar repleto de temas religiosos. Aqui a explicação é que é foi um Arcebispo de Nova Iorque que organizou o primeiro jantar e mantém-se a tradição de ser o Arcebispo a presidir, tendo em conta que Alfred Smith foi o primeiro candidato católico à Casa Branca, em 1928!

quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

16.10.1978

Escrevi esta semana sobre ele, sem me aperceber que hoje se marcariam os 30 anos da eleição do Papa João Paulo II, naquele que ficou conhecido como o Ano dos Três Papas. Morreu Paulo VI a 6 de Agosto, foi eleito o Cardeal Albino Luciani, Patriarca de Veneza, que escolheu o nome reinante de João Paulo I, a 26 de Agosto. Morreu pouco mais de um mês depois, a 28 de Setembro e, faz hoje 30 anos, foi eleito o Cardeal Arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyła, que escolheu o nome de João Paulo II e que havia de marcar a história da Europa e do Mundo. Karol Wojtyła foi o primeiro Papa não italiano desde o Papa Adriano VI, neerlandês que reinou entre 1522 e 1523. O discurso que João Paulo II fez, debruçado sobre a Loggia de S. Pedro, foi inédito, a primeira vez que tal acontecia. Fica o vídeo:

A foto

Além de todos os comentários que por aí circulam, da cara habitualmente estranha de McCain, parece-me que esta é a foto do dia. Tirei do Público.

à la Polonaise...

Não estou em mim - e não é só por causa do estranho filme que a BSC me levou a ver hoje, Savage Grace. O que realmente me surpreende é o novo episódio da história dos manos Kaczynski. Parece de novela. As relações do Presidente Lech Kaczynski - o gémeo bom - com o Primeiro Ministro Donald Tusk (sucessor de Jaroslaw Kaczynski - o gémeo mau) nunca foram boas. A posição que o Presidente polaco tem nas relações internacionais é semelhante à do Presidente português: representa o Estado e tem a última palavra nos tratados internacionais, pelo que se exige normalmente acordo com o governo. Mas é o Primeiro Ministro que dirige a política externa.

Na Polónia as coisas não têm corrido bem e as desavenças entre Lech e Donald levaram: 1) à súplica, do MNE, para que Lech Kaczynski não fosse ao Conselho Europeu a Bruxelas, para não fragilizar a posição externa polaca com desavenças; 2) face à insistência presidencial, à proibição do Primeiro Ministro Donald de que o Presidente Lech usasse o avião governamental para a viagem para Bruxelas; 3) face à travessura de Donald, ao frete de um avião por Lech, alugou carros da Avis ao chegar a Bruxelas e apareceu, na mesma, no Conselho Europeu. 4) à chegada, sem acreditação, do Presidente; mas ninguém se atreveu a parar Lech, que cumprimentou Sarkozy, beijou a mão a Merkel e se sentou no lugar que era para Donald, que ficou com o do MNE, que ficou em pé!

terça-feira, 14 de Outubro de 2008

Crónicas do peregrino V

A procissão das velas foi, como sempre, impressionante. Desde pequeno que vejo na televisão e foi a terceira vez a que assisti lá - a primeira foi em 2000, quando estive durante a última visita do Papa. É sempre igual e no entanto é sempre especial, o mar de velas, os cânticos, a multidão inteira a recitar o terço. No final da missa, um momento arrepiante: enquanto a imagem da Senhora de Fátima era levada para a Capelinha das Aparições, já com as velas apagadas, o silêncio era total, por ordem do padre que teimou depois em não se calar no altar, interrompendo esse mesmo silêncio. Apetecia-me ficar para o dia seguinte, mas para outra vez será. Recomendo a peregrinação, a quem queira e possa.

Crónicas do peregrino IV

A ameaça de chuva acompanhou os últimos quilómetros, profundamente solitários, mas a chegada a Fátima foi também marcada pelos sinos. Devo confessar que nem reparei no que normalmente me choca em Fátima, que é o desordenamento urbano e o caos arquitectónico. Estava concentrado na chegada ao Santuário, onde estava o bispo de Leiria-Fátima a celebrar missa. Aí esperei, embriagado com a sensação de ter chegado ao meu destino e de ver tanta gente a chegar também. Fiquei para a procissão das velas e para a missa. Durante a tarde arrastei-me pelo Santuário: fui à Igreja da Santíssima Trindade e sentei-me onde estivera exactamente um ano antes, exactamente àquela hora, por companhia tendo um chefe de segurança.

Cá fora, na esplanada da igreja, vi as estátuas do Papa Paulo VI e do Papa João Paulo II, os dois Pontífices que peregrinaram a Fátima, ambos representados de joelhos, virados para o Santuário. A do Papa que mais contribuiu para tornar Fátima um altar do mundo e que atribuiu a sua salvação a Nossa Senhora de Fátima, está a tornar-se um local de peregrinação também, com mostras de efectiva devoção, própria dos santos. Tem velas e flores - Paulo VI nem por isso. Na parte de trás da Igreja vi, mais tarde, quando ia embora, que estão as estátuas de Pio XII (imponente, de tiara) e de João XIII (de mitra).

Crónicas do peregrino III

Do primeiro dia faltou contar que o colete reflector veio na mochila até à descida para Alcobaça, que está depois da subida de Alfeizerão. Mas a polícia andava a mandar os peregrinos vestirem os reflectores e teve de ser, que eu sou pelo respeito à autoridade. O segundo dia, de colete vestido, começou bem de noite, em Alcobaça. A subida para Aljubarrota custou e foi o momento em que a canela se manifestou. Em Aljubarrota - outro ponto turístico para o Caminho do Peregrino -, direito a foto à padeira, Brites de Almeida, de quem já aqui se falou. A paragem breve na terra seguinte, com direito a toque do sino à chegada, foi para tentar minimizar as dores; apenas pioraram.

O trecho mais duro foi a caminhada de Aljubarrota até Porto de Mós. À aurora a placa que indicava o início da Serra de Aire. Em Porto de Mós, com o castelo ao alto, a primeira indicação de Fátima. Minutos antes, a minha desarticulação motora na descida rendera-me uma comparação com o Fido, da 7 Up... Remendadas as dores, retemperado com o pequeno almoço, comecei a etapa final com 179 degraus, uma discreta forma de cortar caminho. E daí, foi subir a dita Serra de Aire, eu sem parar - portanto mais solitário mas bastante satisfeito com esse facto - com medo de que me custasse mais com o descanso.

Os peregrinos multiplicaram-se, até um cão (!), e a aproximação de Fátima encontrou-me mais confiante, com menos dores e com mais certeza de que tomara uma boa decisão ao fazer a peregrinação. Vi ontem uma reportagem na TVI (bem sei que é pouco recomendável, mas era um médico), em que se dizia que a fé é um poderoso analgésico. Confirmo.

Crónicas do peregrino II

Ainda Alcobaça:

Crónicas do peregrino

As fotos que ilustram a minha peregrinação a Fátima começam muito depois do início da caminhada. Partimos muito mais cedo do que eu desejaria ou teria planeado, pela fresca que era tudo menos isso. Em plena madrugada, estava um calor que certos dias de verão não viram. Ao cabo de uns poucos quilómetros, as primeiras dores, que tentei ignorar e classificar como mera ilusão. Resultou, de tal modo que durante o resto das horas essa primeira dor passou, ou se diluiu nas outras.

As primeiras luzes do dia viram-nos já depois do cenário verdadeiramente medieval de Óbidos (note quem de direito que o carácter medieval de uma vila não vem do facto de ter um castelo que sobreviva os séculos desde o medievo, mas a data de fundação da mesma vila: pelo que, tendo a minha recebido foral do Rei D. Afonso Henriques em 1167, me parece suficientemente medieval), cujo castelo se impunha na colina. Dali ao pequeno almoço na minha cidade natal de Caldas da Rainha foi um salto... apenas umas horas.

A primeira etapa verdadeiramente dura da caminhada foi a subida a seguir a Alfeizerão. Pão-de-ló nem vê-lo, e tão bem que me teria sabido. Foi quando comecei a descer e olhei em volta, à medida que passávamos por povoações que de típico só tinham a descaracterização, que imaginei o motivo da inexistência de uma rota mais ou menos turística para os peregrinos a caminho para Fátima, à medida dos Caminhos de Santiago. Não é que haja excelsas maravilhas em grande parte do percurso - mas Óbidos com certeza que é, declarada até pelos votantes do ano passado; Caldas tem alguma coisa que interesse; ali pelo meio quase nada, além do pão-de-ló; mas chega-se depois a Alcobaça, Património da Humanidade e votado também, e dali em diante há mais por ver. Tudo muito pouco explorado ainda.

Em Alcobaça, feitos muitos quilómetros de caminhada, receberam-nos os sinos da Igreja da Real Abadia de Santa Maria, que surge magnífica na última curva. Ainda tive fôlego para uma visita turística, que já não entrava há anos para ver a impressionante nave gótica, os exuberantemente românticos túmulos do Rei D. Pedro I e de D. Inês de Castro, o delicioso e pacífico claustro do Rei D. Dinis e as salas da Abadia, a Sala dos Reis com as suas estátuas reais, o Dormitório, o Refeitório, a Sala dos Monges, a Cozinha... tudo devidamente fotografado. Curiosamente ontem havia um artigo no Público sobre o Mosteiro e os possíveis usos que lhe vão dar. Espero que não estraguem. Talvez integrar na minha Rota dos Peregrinos?

No fim da visita arrastei-me até ao hotel, ignorei o jogo de Portugal e dormi, poucas horas, antes de continuar a caminhada.

segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Peregrino.

Um ano antes cheguei em hora e um quarto, com batedores, num carro submetido ainda assim a sacrilégios, em que o ponteiro da velocidade teimosa e erradamente marcava 100 kms/h, quando quase em tanto se enganava! Era eminente a nossa chegada; não digam que é erro. Chegámos, com o devido alarido. Partimos, com uma dose cerimoniosa em cima, rodeados de uma nova confusão e muito mais alarido, de peregrinos e de polícias, de curiosos e de protestantes. Ponteiro milagrosamente ressuscitado, por pouco tempo, tais eram os sacrilégios a que estava diariamente submetido.

Um ano depois, 12 de Outubro de 2008, voltei a entrar em Fátima. Desta vez como peregrino. A pé. Uma hora e um quarto antes estava a subir a Serra de Aire, culminar de uma caminhada que fiz da minha vila e não da minha cidade. Queria há muitos anos fazer a peregrinação a Fátima, mas sempre houve motivos para o não fazer. Afrontava esta minha vontade com alguma curiosidade. Não sou dado a promessas e sobretudo repugna-me a forma de permuta comercial como algumas pessoas as cumprem, sem fé ou com medo de aparentar que têm fé.

A minha caminhada até Fátima foi sobretudo um exercício espiritual, uma forma de explorar a minha fé, com tudo o que tem de naturalmente inexplorável e inexplicável. Nos dias antes estava, confesso, com mais preocupações com o desafio físico da caminhada, com a chuva prometida e felizmente não chegada. À medida que caminhava e o desafio físico se transformava em dores no corpo, tudo passou a ser um desafio espiritual, um desafio de fé. Incomodavam, com certeza, as dores. A minha canela esquerda está aqui, aliás gritante, para me recordar os 90 kms feitos em dois dias, menos de 24 horas de caminhada efectiva.

Na minha mente esteve sobretudo a minha relação com Deus, e a tentativa de explicação desta vontade que a muitos pode parecer a de simplesmente fazer um esforço inútil para chegar a um santuário - ao qual se chega, de carro, em apenas uma hora. Cheguei à conclusão de que os momentos de introspecção que me permitem os quilómetros que separam a minha vila medieval da Cova da Iria, são a resposta para a minha dúvida. Peregrino, com a mente em Deus e na Mãe da Cristo, cujas aparições em Fátima são a meu ver um momento marcante na História de Portugal e da Igreja.

Peregrinação em grupo, não deixou de ser profundamente individualista, como de resto é a minha fé. Resumiria a minha caminhada como um exercício de fé. Contarei numa crónica, com direito a reportagem fotográfica, os aspectos mais práticos da caminhada, o que vi, o que pensei. Aqui ficou mais o que senti, além das dores. Neste momento, com a sua parte de inexplicável, sinto a vontade de repetir e talvez de partir pelos Caminhos de Santiago, para o Xacobeo de 2010.

quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Quem terá dito?

Estava aqui na minha revisão do meu relatório de mestrado e encontrei uma referência que, na actual situação económica, não deixa de ser curiosa e de demonstrar uma actualidade impressionante:

"É coisa manifesta, como nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo económico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negoceiam a seu talante. Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que não pode respirar sem sua licença. Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia actual, é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência. Por outra parte este mesmo acumular de poderio gera três espécies de luta pelo predomínio : primeiro luta-se por alcançar o predomínio económico; depois combate-se renhidamente por obter predomínio no governo da nação, a fim de poder abusar do seu nome, forças e autoridade nas lutas económicas; enfim lutam os Estados entre si, empregando cada um deles a força e influência política para promover as vantagens económicas dos seus cidadãos, ou ao contrário empregando as forças e predomínio económico para resolver as questões políticas, que surgem entre as nações."

Quem terá escrito tão sábias palavras? Corria o ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1931 e foi o Papa Pio XI, na Encíclica "Quadragesimo Anno", no 40.º Aniversário da "Rerum Novarum" de Leão XIII. Sublinhado nosso.

segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

A UE à prova

Se há 9 anos se ouvia fado na televisão, hoje falou-se de crashes nas bolsas - os maiores da história - e de uma reunião de urgência que põe à prova a União Europeia, que é sobretudo monetária e económica. Por isto mesmo, por esta prevalência do carácter monetário e económico sobre o político, as reuniões que têm lugar neste momento no Luxemburgo entre os ministros das Finanças europeus, são mais determinantes que as da aprovação de qualquer tratado, porque o motivo primeiro de existência da UE, a capacidade de resistir às crises e flutuações económicas, está em causa. Vamos ver se a Europa consegue dar o impulso aos mercados e se não espera, como dizia um jornal espanhol há pouco (entretanto retirou) que cada país aja por si - o que começou a acontecer, com as garantias dos depósitos a sucederem-se.

Falou-se também da vergonha que são os preços dos combustíveis em Portugal, os terceiros mais altos da UE e da possibilidade de haver concertação de preços: ainda há alguém com dúvidas??? O que é que a AdC anda a fazer? Falou-se depois de uma fabulosa extensão da concessão à Mota-Engil de Jorge Coelho do terminal de contentores de Alcântara, que vem com a triplicação (!!!) do número de contentores e, logo de seguida, de 400 novas creches nas zonas metropolitanas de Lisboa e Porto, que o Senhor PM prometeu, até ao fim de 2009, com sorte abertas antes das eleições. É o país que temos.

Há 9 anos...

1999. Há precisamente 9 anos atrás. Estava a ter lições de condução. A faculdade estava ainda por começar, mas seria nesses dias. A dia 10, António Guterres, esse vulto da história de Portugal, seria reeleito Primeiro Ministro. De manhã, entrei na papelaria para comprar o jornal e ouvi o dono comentar para um cliente "então, lá morreu a Amália". Não liguei. Subi a rua e entrei na mercearia e ouvi alguém comentar "diz que morreu a Amália, não é?". Pensei para comigo: esta Amália era conhecida cá na vila. Não me ocorreu, em nenhum momento, que fosse A Amália, personagem fundamental e incontornável da cultura portuguesa e da História de Portugal, que tivesse morrido. Só quando ouvi as notícias, à 1h, é que percebi o que acontecera. Gosto muito de fado e acho que o fado, na voz da Amália, era outra coisa, de castiço, de tão natural que lhe saía. Nessa mesma tarde o meu instrutor de condução, contestatário que não se aguentava!, achou que tudo estava planeado, para Guterres ganhar com maioria absoluta. Falhou por um deputado.

Afinal diz que não foi gaffe

O Telegraph diz hoje que Sarah Palin foi na verdade mandatada por John McCain para atacar o Senador Obama, como uma espécie de braço armado. Não é mal pensado. Caso a coisa corra mal, digo eu, os republicanos podem ser escudar-se na manifesta inexperiência da candidata a Vice-Presidente, que haveria cometido uma gaffe e não um ataque.

domingo, 5 de Outubro de 2008

Time for change

As eleições americanas são daqui a um mês e parecem estar a tornar-se menos imprevisíveis do que as duas últimas edições - mas com as flutuações nas sondagens que tem havido, eu diria que é melhor esperar até à noite das eleições. As últimas sondagens dão uma maioria cada vez mais confortável a Barack Obama e o Senador McCain já desistiu da corrida num dos estados marginais, o Michigan, decisão em que foi criticado pela própria Governadora Palin, que terá sabido através da imprensa. Por outro lado, Obama está na corrida em estados tradicionalmente republicanos. O New York Times tem uma apresentenção multimédia sobre os estados em causa.

O mesmo jornal diz que "Mr. Obama appears to have significantly more options to reach the 270 threshold, particularly if Mr. McCain fails to win any states that Democrats won in 2004, like Pennsylvania, where the Republican ticket has been competing especially vigorously." Mas o jornal também sublinha que, com as sondagens ainda incertas e com a calma económica que se espera - depois da aprovação do plano de salvação económica de Bush pelo Congresso na sexta-feira - as coisas podem voltar a mudar e os ventos soprar a favor de McCain.

No entanto, a Governadora Palin, estrela da campanha, cometeu ontem mais uma gaffe, que os analistas prevêm poder custar mais votos a McCain. Sarah Palin disse que o candidato democrata andara "palling around with terrorists", que é como quem diz "tem amigos terroristas". Fê-lo, ao seu melhor estilo, sem provas e sem substância. Está no Herald, por exemplo.

Mudanças também, em Inglaterra, no governo de Gordon Brown, ao qual regressa o quase-lendário Peter Mandelson, até agora comissário europeu na equipa de Durão Barroso e um dos arquitectos do "New Labour". Uma espécie de Santana Lopes, Mandelson disse, ao partir para Bruxelas: "I am not going to be in outer Siberia, you know", seguindo-se um sinónimo de "vou andar por aí". E volta ao governo inglês - do qual teve de sair por duas vezes, apesar da óbvia confiança de Tony Blair, que tentou, em vão, restaurá-lo para uma terceira. O Telegraph apresenta Mandelson como um truque de Brown, cujos índices de popularidade estão na subcave, mas também como uma jogada arriscada, dadas as flutuações de lealdade do senhor Mandelson.

Por outro lado, e fica por ver se a remodelação governamental de Gordon Brown causa algum efeito, os Tories têm estado imparáveis nas sondagens. No Telegraph de hoje, há um artigo de opinião que valoriza o discurso do líder conservador David Cameron como um dos mais sinceros da história política. Cameron disse que "I’m a man with a plan, not a miracle cure" e assumiu-se, sem medos, como um líder conservador, com valores conservadores. Defendeu as missões militares britânicas, sem se afastar da visão mais militarizada que os Tories normalmente têm, prometendo até mais dinheiro para as Forças Armadas. Impressionou quase todos. A mim, conservador sem dúvida, mas conservador moderno, apoiante de Obama, impressionou-me. Que pena não haver em Portugal alguém que me inspire a confiança que me inspira Cameron. E ainda levamos com o regresso de Santana Lopes?

sábado, 4 de Outubro de 2008

Out of Africa

Comecei a rever alguns clássicos... esta semana vi o Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida (1981) e hoje acabei de ver o Out of Africa, a fabulosa adaptação de Sydney Pollack (1985) do romance da Baronesa Karen von Blixen-Finecke (onde-é-que-eu-já-ouvi-este-título?), uma aristocrata dinarmarquesa (casada e descasada com um barão sueco) que narrou os seus tempos e aventuras no Quénia. Meryl Streep, 25 que parecem 40 anos mais nova que no Mamma Mia!, e Robert Redford fizeram uma dupla memorável, mas são as imagens do Quénia, com a música de John Barry, que deixam, outra vez, a vontade de regressar a África!

quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Outra vez a senhora Palin

O Times tem um artigo sobre o debate vice-presidencial que tem lugar amanhã entre a Governadora Sarah Palin e o Senador Joe Biden. Fala da deterioração da imagem da Governadora do Alaska, como resultado das suas intervenções desastrosas e do gozo de que tem sido alvo em programas com muita audiência como o Saturday Night Live da NBC. Pela segunda vez a comediante Tina Fey fez uma interpretação brilhante da candidata republicana, inspirando-se na entrevista à CBS de que eu falei na semana passada, imitando gestos, frases e expressões. Na primeira vez Tina Fey fazia uma hilariante intervenção conjunta com "Hillary Clinton". Fica o vídeo: