Foi uma mais de tantas tardes na praia deste longo verão ocioso. Estava muito bom. Mas, se enquanto estive no Baleal ainda comecei a escrever o Manifesto contra o Palavrão - que um dia retomarei e chegará! - hoje tenho de escrever sobre a conversa que fui forçado a ouvir entre duas miúdas de uns 15 anos. Não sei se elas me acharam com cara de estrangeiro que não iria perceber a conversa, ou se acharam que eu ia ficar bem impressionado ou se nem sequer pensaram no que pensariam as pessoas que as ouvissem, das quais eu era o mais bem posicionado. Inclino-me para esta última hipótese.
Não eram giras sequer. Uma era um bocado gorda e tinha um pano enrolado, com uma trança de tecido esquisita no cabelo. A outra era uma espécie de camafeu, dos maus. Falavam a espécie de dialecto juvenil que ensinam programas da nossa televisão como os Morangos com Açúcar e afins, ("ya"; "tipo"; "a minha avó é bué sedentária" !!!) polvilhado com palavrões q.b.. Mas, com dois sobrinhos assíduos dos programas e fluentes no dialecto, lá fui percebendo o bastante. Primeiro falavam sobre o enorme prazer de fumar e a falta que lhes faz um cigarro (uma tremeram-lhe as pernas ao fumar o primeiro cigarro de um mês às escondidas na varanda). Esta gente percebe o mal que faz o tabaco? Já depois passaram para a ganza, e a melhor forma de a fazer.
A conversa sobre os namorados foi bastante normal, dentro do ridículo. Depois falaram em conferência telefónica com uma terceira amiga e foi quando começou a conversa sobre as bebedeiras "ya, tipo, mas ela tava mêmo bêbada ou tava só com os copos?" e combinaram uma grande bebedeira para esta noite, na casa do camafeu com a avó sedentária, segundo percebi. E, terminada a conferência, continuaram a discorrer sobre as maravilhas das bebedeiras e da vodka e de quantos cigarros iam fumar esta noite. Depois divertiram-se a telefonar de números privados para pessoas que conheciam e a passarem por parvas, elas, não as supostas vítimas da brincadeira. Quase me senti envergonhado pela figura ridícula delas.
E tudo isto poderia ser normal. Como dizia a T. esta tarde, bebedeiras e cigarros na adolescência sempre houve e vai continuar a haver. A diferença, dizia - e muito bem - a T., é que nas adolescências dos anos 70 e 80 e 90, iam as substâncias mais ou menos ilícitas a par com ideias sobre o mundo, com projectos para o futuro: substância, chamemos-lhe lícita, que dava algum sentido ao álcool e ao fumo do cigarro. Hoje, a adolescência é viver para fumar, para curtir, para beber, para ver televisão e jogar playstation e ser famoso, se possível, aparecendo nos ditos Morangos. E, assim sendo, deixa sem conteúdo e sem valores o futuro, seu e da sociedade que vai integrar. E claro que há excepções, mas são cada vez menos, segundo me é dado a ver.
E, da juventude dos meus quase 27 anos, parece-me péssimo o futuro deste país, parece-me que as coisas pioram a olhos vistos e não vejo ninguém preocupado. Só um desabafo de quem durante duas horas quis dormir e não conseguiu...