segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Diz o roto para o nu...

Ah...! Mugabe afinal não vai sair impune! Estão os líderes africanos reunidos em mais uma cimeira da União Africana, desta feita no Egipto, e vão condenar os abusos dos direitos humanos, e falta de eleições livres, basicamente o facto de estarmos perante um ditador!

Quem o vai condernar? O Presidente do Gabão, El Hadj Omar Bongo Ondimba, está no poder desde 1967 [é certo que foi já eleito por maioria impressionantes - curioso, Mugabe também!]; o Grande Líder da Revolução Líbia, Muammar Abu Minyar al-Khadafi, na tenda desde 1969 [nem se dá ao trabalho de eleições]; Paul Biya, Presidente dos Camarões, está lá desde 1975 [com novas constituições e eleições pelo meio e sempre novas tentativas de se perpetuar]; o Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo e o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, ambos desde 1979 [...].

Enfim, o meu título é bastante explícito. Será que a União Africana poderia condenar com demasiada veemência um ditador e ignorar todos os outros que estão sentados na mesma mesa e a votar a condenação? Dificilmente. Daí que notícias como esta, chegadas do Egipto, da mesma cimeira da condenação, não me surpreendam nada (e confesso que só a vi agora, depois de ter escrito grande parte deste post). Foi declarado um "herói" pelo Presidente do Gabão!

domingo, 29 de Junho de 2008

¡Ole!

sexta-feira, 27 de Junho de 2008

O Alentejo nos meus livros

Este ano o Alentejo entrou na minha vida, de forma bastante inesperada. Primeiro foi a minha visita solitária em Março, que resultou nas primeiras crónicas deste blog. Depois voltei em óptima companhia várias vezes, entre Majestades, Altezas e sobretudo amigos. Por esta altura sei já quais as curvas da estrada de Évora a Monsaraz que nos deixam aniquilados, sobretudo quando em causa estão velocidades impróprias para cardíacos, com ou sem batedores, com ou sem pirilampos.

Estranhamente, o Alentejo entrou também na minha vida através de vários livros que li. O último, de que falei já várias vezes, foi o Levantado do Chão, de Saramago. É, à primeira vista, a muito bem escrita história dos Mau-Tempo, uma pobre família alentejana. Paralelamente é a história do latifúndio vista pelo lado dos pobres e também do comunismo alentejano, o mais arraigado do país. Com graça mas sem drama, o Nobel português justifica os anseios dos alentejanos por um verdadeiro regime comunista com a malvadez dos patrões, da guarda e do país em geral. É um retrato da miséria dos anos da ditadura, mas que não conhecem verdadeiro fim com a revolução, ficando no ar o descontentamento. Prima pela boa escrita.

Antes tinha lido o Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares. A léguas - muitas! - (para pior) do seu primeiro romance, o Equador, é também ele a história de uma família alentejana, os Ribera Flores - estes ricos, latifundiários, donos da Herdade de Valmonte - e no mesmo período, o da ditadura salazarista. Não há o drama magnífico do Equador, mas há um curioso relato das relações entre Pedro e Diogo Ribera Flores, os irmãos tão diferentes e politicamente opostos. MST ilustra bem a posição de alguma sociedade, que se acomodou à ditadura e de outra que, não se tendo acomodado, fechou-lhe os olhos, porquanto lhe possibilitou a tranquila vida, sem que nada faltasse.

y... ¡Viva España!

Já ia desligar, mas tinha de deixar o meu grito (cf. título) pela vitória brilhante da Espanha esta noite sobre a Rússia, aniquilada. Tenho, está bem de ver, preferência pelos vizinhos no jogo do próximo Domingo. Espero que a Espanha ganhe, por muitos. Se não ganhar durmo bem na mesma...

P.S.: O título do Público sobre a vitória é que não é brilhante... "A vitória que deixou a princesa Letícia de boca aberta"

quinta-feira, 26 de Junho de 2008

Derradeiras fotos

Crónicas da Berlenga V

Começo esta derradeira crónica do meu exílio na Berlenga com a recordação do muito descansado estado de alma com deixei a Ilha no final da tarde de Domingo. Vontade de partir era nenhuma, o reboliço do continente parecia demasiado óbvio e a sua recordação ainda latente. Ficaria mais algum tempo, uma semana pelo menos, alheio a todo o sinal de precariedade, pelos cânones da vida quotidiana. A calma do oceano, presente e calmo, como pano de fundo etéreo, a possibilidade de passar sem obrigações os dias, são promessas aliciantes. A vida é diferente, o regresso impunha-se.

Recordo porém, deste dia, mais núvens, que só ao final da manhã abandonaram o arquipélago, deixando o sol brilhar em toda a sua intensidade, e era muita. O protector foi julgado demasia por alguns, apesar dos tons transparentes - era a vingança por dois dias de sombra. Mas o sol levou a melhor, deixando a sua marca fresca sobre as alvas tezes. Disto me safei. Fomos a um passeio final, desta vez de barco, às grutas da Ilha, azuis e outras. Terminou com o relato de uma aventura de tábuas, do bote em que seguíamos, que solitário partiu numa noite de tormenta, e apareceu na Madeira, essa outra ilha, quase Marrocos, quase também Mediterrâneo! O Senhor Marcelino lá se soltou do relato mecanizado - parecia que engolira moedas o homem! - e contou as aventuras de marinheiro e do destino, curioso que é por vezes.

Como disse ontem, estávamos, a esta altura, clandestinos. A magna A., vencedora de tantas cartadas, acumulava as falhas. Depois dos esquecimentos ("básicos", sic), o que falta? - erro de marcação. Devíamos, afinal, ter partido na véspera! O risco de expulsão tinha existido então, mais que neste Domingo. Mas os olhares do Lord of the Keys eram de desconfiança, pensando se não nos disporíamos para mais uma noite na doce clandestinidade. Até nos dispunha-mos. Mas não podia ser. Resignados, pois, ensandecidos pelo sol que faltara tanto e agora brilhava, ridículo, fora de horas, quando nós tínhamos de arrumar, limpar, descer a escarpa com todos os despojos de quinze que foram quatro dias!

Mas se algo ouvi nestes tempos de vida pública foi uma frase, bem repetida: "Eu não me resigno!". Di-la o nosso Presidente e disse-a eu. Usando as influências que as noitadas de UNO trouxeram, lá soube de um barco, ancien iate de um humorista da praça, que faz também ele viagens e nesse dia uma faria ao fim da tarde, duas horas e meia depois do Cabo Avelar, em que tínhamos pensado partir. A hipótese que se formou no nosso pequeno horizonte foi a de mais umas horas de sol, suficientes para apagar da memória os dois dias de sombra com que fôramos brindados. Duas horas e meia que trouxeram aos pálidos olhares um sorriso de satisfação, como um chocolate, sem calorias.

E assim como eu disse "isto com sorte antes de o Cabo Avelar sair encobre-se outra vez", assim aconteceu. A vizinha tinha calor, mas o chapéu com ventoinha era um adorno de graça e de presença de espírito. Mas havia esperança. As nuvens não eram densas, eram afinal apenas ajuda para os que tinham de partir, infelizes. E com esse Cabo foi grande parte da companhia das noites memoráveis que a Ilha viveu na nossa presença, de renhidas vitórias, derrotas mas sobretudo gargalhadas. E finalmente o sol, para nós, todo o resto da tarde, mais uma de UNO, trágico para mim, renhido entre as meninas, até ao jogo final, vitória da C., desforra e contentação gerais, miséria da A., que tanto empenho pusera, tudo sem mau perder! Fez-nos companhia o Cj., conhecido assim, como por qualquer outro nome, que ele não se estranha.

Enfim partimos (duplamente clandestinos, o barco não tem licença, disseram) e eis-me, sonhador, a desejar o regresso e a protelar uma conversa que tenho de ter comigo mesmo, sobre o meu futuro. Vou lendo, recordando e escrevendo, para quem me quiser ler e visitar, de forma diferente, esta última paragem antes do fim do mundo, perfeito destino de exílio, melhor que Elba. Já regressei.

Fotos do terceiro dia

Crónicas da Berlenga IV

Ao terceiro dia, o inferno pareceu descer sobre nós, apesar do véu de nuvens que acompanhou a estadia no cais, na praia e no almoço na nossa varanda sobre o Mediterrâneo - era ainda uma grega ilha, ou estávamos hoje em La Valletta (onde fica?, Malta). Tivemos direito a visita, ilustre e mais será no futuro, porque a isso será obrigado. Votaremos nele, com certeza.

Na verdade, foram antes gaivotas que efectiva e literalmente desceram sobre nós. Tinha prometido aos meus companheiros de exílio uma visita a um verdadeiro bairro social (grego, maltês, não interessa): na minha última visita ao arquipélago, há 2 anos, tinha ficado com essa sensação de passar no casal ventoso das gaivotas, durante o meu passeio matinal pelo trilho das Buzinas. Enfim, estava pior ainda! Desta vez nem o trilho se conhecia, uma vergonha de reserva aquela!, e o perigo estava no auge, com ataque atrás de ataque, e o incessante grito cacarejado de alerta, que nos levava à loucura quase.

A certa altura senti o perigo a milímetros da cabeça. Havia de me dizer a autoridade militar, o Agente R., que desde que lá está, início de Junho, houve duas senhoras que chegaram ensanguentadas à sua autoritária presença, vítimas de bicos de gaivota. Perto estive e não me deixam mentir os meus companheiros de terrorífica viagem, que assistiram, pálidos que estavam. Quando prometi uma visita a um bairro social, não exagerei. Violência doméstica, barulho, falta de maneiras e perigo constante, não um bairro social qualquer, um perigoso. Sabia ao que ia, mas não pude deixar de ter medo bastante. O passeio acabou com uma sugestiva sessão fotográfica e com mais uns momentos para a câmara do M..

Jogámos e ganharam os homens (sic) ao olho - que não se pode dizer de onde - para fúria displicente da A., cujas regras em boa hora surgiram, a meio do jogo. Esqueci-me, lembrei-me agora, de contar outra história do primeiro dia, em que umas meninas histéricas (não sei que idade tinham, eram jovens q.b.), ao passarmos eu e o M., uns jovens também, psicologicamente uns miúdos, rumo ao nosso banho - ahhhh, também não contei os nossos fantásticos banhos ao final da tarde, no mar gelado? - julgaram que lhes íamos ocupar a cabine de banho (gelado e salgado também, mas de chuveiro); passado o perigo, gritou uma para a outra (eram histéricas, já disse, da idade): "vinham aí dois homens!". Bem sei, ter 26 anos não é ser novo. Homens pois, qualquer dia já dizem "vinham aí dois cotas!".

Novo fim de tarde com grelhados (outro jantar delicioso), conversas francas e eloquentes, com o mar como pano de fundo, um bem-estar roçando a perfeição dos momentos, com o céu a abrir enfim, a tempo de ir ver o pôr-do-sol, depois das fotos, as primeiras a quatro. Ganhou outra vez a A. nessa noite no UNO; a companhia foi a mesma e óptima, os batoteiros cada vez mais, todos muito divertidos, eu com péssima sorte. Pequena brincadeira para a vencedora, um brinde ao mau perder!, a solidão inesperada à porta de casa, da parte de fora, sem chave, gravada em vídeo, com direito a gargalhadas. Belo fim de noite e estávamos, por esta hora, clandestinos.

quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Crónicas da Berlenga III, outra morte

Acabo de regressar do cinema, de uma comédia romântica com graça, fácil na sua maioria, mas com graça, What happens in Vegas de seu nome. Falta-me apenas uma mão cheia de páginas para acabar o Levantado do Chão (mas sobre ele falarei outro dia). Também ele foi à Berlenga, julgando eu que nem chegaria ao fim do exílio por ler. Enganei-me. A distração chegou no segundo dia pela mão do M., que depois de acabar de ler em menos de 24 horas um pequeno livro, sugeriu que eu lesse o elogiado prefácio, autoria de António Lobo Antunes. O prefácio é breve, na proporção do livro, mas merecedor do elogio. O livro não é propriamente de um autor desconhecido: o conde Lev Nikolayevich Tolstoi tem nele uma obra prima. Tolstoi conseguiu, com uma simplicidade e crueza impressionantes, descrever uma quantidade de sentimentos humanos profundamente comuns, relacionados com a morte: A Morte de Ivan Illich. Mais que recomendado.

Fotos da segunda crónica

terça-feira, 24 de Junho de 2008

Crónicas da Berlenga II ou a estranha morte de uma gaivota

Silenciosamente, o nevoeiro apoderou-se do céu da Berlenga no segundo dia do meu exílio. A vizinha do lado, em toda a sua sabedoria e experiência, disse-nos logo que ou levantava até ao meio dia ou estava para ficar. Não imaginámos que ficasse tanto tempo, mas ficou. Arriscámos o cais, o sol estava lá, mas não apareceu senão velado. A meio da manhã o episódio que marcou este segundo dia: estão ainda por esclarecer as circunstâncias em que aconteceu, mas a morte de uma gaivota, que do pleno voo se despenhou em plena água, despoletou um ataque de fúria e excremental sobre a moribunda. Ao fim de uns minutos estava morta.

Pareceu-me, e sobre isso descorri toda a manhã, que a hipótese mais provável é a de que uma luta de gangs rivais tivesse tido aquele desfecho trágico. Se entre gangs de gaivotas ou entre gaivotas e ratos, não sei, não consegui perceber. Nessa mesma tarde teria de supor que os ratos estavam envolvidos. Não percebi a dimensão da tragédia, para a morta, até eu próprio mergulhar no fim dessa manhã e perceber que a hipotermia foi a razão última da morte da criatura. Triste e doloroso fim. Mergulhei no cais e nadei até a praia. Em cada braçada o meu pensamento voou dolorosamente para a gaivota.

À tarde, faltando o sol, há que conhecer a Ilha, que até a suposta expert afinal desconhecia. Visita gravada, bien-sûr, pelo M., repórter de imagem e também actor deste filme de quatro dias. A fisionomia social da ilha desenha-se aos nossos olhos: a parte central é como que a parte turística, incluindo o cais, o Bairro dos Pescadores, o farol e o Forte de São João Baptista, até ao heliporto. As gaivotas estão aí como que para turista ver e sofrer na pele a ira excremental. A parte sul da Ilha é, neste reino de gaivotas, a zona chique, a das aves de boas famílias, entre os dois apelidos e as letras duplas; algumas certamente imigradas, mas produtoras de alguma coisa há gerações, como as do vinho do Porto. Entre vegetação abundante, algum glamour.

A norte, extremo oposto, fica, como comprovaríamos no dia seguinte, o bairro social, ou não se chamasse Buzinas. Outro relato será. Tudo isto poderiam ser divagações de quem ouve há demasiadas horas o cacarejar grasnado que às vezes parece ladrado daqueles animais. Mas a verdade é que as correspondências a uma estranha realidade social são evidentes. Episódio deste passeio: um despojo da luta entre as gaivotas e os ratos. Um destes estava no trilho, morto também ou antes banquete para gaivota, deliciada estava.

Descemos ao Forte (com direito a ataque de gaivota à C., e a mim por tê-la defendido). Não vou dar asas ao meu descontentamento pelo que é a existência desta fortaleza mal aproveitada, que podia ser uma Pousada única, no meio do Atlântico. Foi outrora um bom sítio de férias, hoje é uma espécie de albergue sem condições, pouco cuidado, sem brio ou qualquer réstia de qualidade, uma vergonha neste concelho. Muito triste, tudo em nome de umas férias baratas para uns poucos que pouco se importam, desde que as tenham para sempre garantidas. Enfim. Depois dos grelhados animados por um quase-desenho animado, voltámos ao UNO, que por nós esperava a sociedade da ilha, ávida de vingança, de desforra, que chegou.

Fotos de uma primeira crónica

Falta a foto prometida da vizinha... mas virá mais tarde.

Crónicas da Berlenga

Chegámos quinta-feira de manhã à Ilha da Berlenga, carregados, parecia, para 15 dias. Quatro de um grupo que, por motivos diversos, não pôde estar completo – um marido em formação na rival Alemanha, um trabalhador sem folga e um futebolista politizado faltaram ao rendez-vous. Imprevistos. Desembarcámos no cais sob um sol fantástico: sacos e mochilas sem fim aguardavam ser levados escarpa acima, que apela aos músculos, atenta a abençoada falta de qualquer veículo motorizado.

A meio caminho, um gentleman elogiou o “cabedal” da A., a quem ofereceu ajuda. Viemos a saber mais tarde ser o senhor Vasco, que aos 79-quase-80 anos (será em Novembro: é escorpião e tem, segundo ele próprio, todas as características do signo, o melhor, também segundo ele; é modesto) passa as suas férias na Ilha e sobe diariamente ao farol para dar almoço e jantar ao Farol, cão eremita, único na Ilha, por ser militar: um puro rafeiro, não se pense que é um pastor alemão, que de alemães ficaríamos nessa mesma primeira noite fartos.

Mas a frase deste primeiro dia veio no alto da escarpa com a mais pura pronúncia de Peniche, que a escrita não pode infelizmente ilustrar na perfeição mas da qual o erro gramatical dará alguma noção: “Trouxerem tudo?” Limito-me a transcrever a frase que deu início a uma breve mas sugestiva conversa, apenas uma das que esta singular vizinha (que teve direito a foto, que virá depois) do Bairro dos Pescadores teve com vários de nós ao longo destes dias. A censura, sinal felizmente ido de tempos também eles idos em que a Berlenga não era mais que um selecto destino de férias, encarrega-se do resto das conversas. Mas a vizinha tem inegavelmente graça e muita presença de espírito.

Transformámos a pequena casa em glamouroso lar e a ilha quase em grega, com o toldo branco a distinguir a nossa presença no meio do Atlântico-quase-Mediterrâneo. Sobre nós pairava a companhia mais certa nesta pequena ilha: as gaivotas. Estranhamente espertas, delas voltarei certamente a falar, por ser inevitável – são largos milhares e estão irritantemente coordenadas. Mas tudo isto ficará para a narração de um segundo dia. O primeiro acabou com uma derrota, a de Portugal. Teria sido bem original, celebrar a passagem às meias finais no meio do oceano, mas não foi desta.

Depois do jantar, demo-nos a conhecer e conquistámos a sociedade da Ilha – não foi propriamente uma festa, mas podia ter sido, com direito a autoridade militar (e não era o cão) e a chefe de cozinha: na esplanada do restaurante jogámos renhidamente ao UNO durante umas horas e, ao apagar geral das luzes (sim, não há luz durante a noite na Berlenga), que foi nesse dia pontualmente à 1h, tinha-se finalmente invertido o resultado, para gáudio da A.. Não obstante saber, como todos, da sua vitória, obrigou a contar ponto por ponto, para que ficasse escrito o ganho. E negou mau perder, pois não perdeu. Falta dizer que a contagem tivemos de a fazer… às escuras. Valeu o facto de a noite estar clara, com a lua cheia espelhada no mar… e de haver uma lanterna.

domingo, 22 de Junho de 2008

Regresso à pátria

Regressei, estimados leitores, do meu exílio. Dourado, sim, embora não tanto quanto eu teria gostado... nunca me posso esquecer que a minha província - onde se integra a Ilha da Berlenga, para onde me exilei - tem um microclima muito específico que resulta em neblinas e nuvens quando o remanescente país está sob um sol abrasador. Foi o que aconteceu em dois destes quatro dias, aproveitados, à falta de sol, em visitas aos vários bairros da ilha, algo de que darei mais detalhes amanhã: não vou conseguir relatar hoje estes magníficos dias, nem documentar a minha estadia com as fotos.

Quero, porém, dar conta de que venho descansado, muito descansado, e de que passei uns dias muito bons, rodeado por amigos com quem vou estando, mas raramente durante tanto tempo. E foi uma óptima experiência, a repetir; porque da "diversidade de dons espirituais" (Cor 12, 3b-7.12-13), da mistura de feitios e formas de estar, das qualidades e dos - raros - defeitos, resulta uma "harmonia harmónica" (sic, aulas de filosofia do 12.º ano), um natural bem-estar em conjunto. E neste ambiente desarmado, quase fora do mundo, conseguimos passar óptimos momentos, divertidos uns, profundos outros.

Enfim, qual Imperador regressado à pátria!, vou descansar antes de antender às súplicas e ao despacho que se acumulou durante estes quatro dias, que foram, no mundo, de congressos, casamentos (diz-que) reais e de jogos de futebol mais ou menos inglórios. Sobre tudo isto dormirei e deixarei cair a minha atenção... amanhã.

quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Breve nota ao partir para o exílio

Não tentando imitar o grande-pequeno Napoleão, que discursou às suas tropas ao partir relutante de Fontainebleau, a caminho da Ilha de Elba, devo, no entanto, proclamar hoje perante vós, ilustre e fiel assembleia, a minha partida à aurora próxima para um exílio, que espero dourado pelo menos na cor que para a pele resulte. A gloriosa Ilha da Berlenga, última paragem antes do fim do mundo, é o destino.

É certo que vou ficar longe dos 100 dias do Imperador; serão apenas 4. Não terei, só por isso, tempo de implementar inovações entre a comunidade comparáveis às de Bonaparte na população de Elba. As gaivotas, que compõem 99% da população da ilha, esperariam mais de mim. Mas as condições não permitem mais: não estou habituado ao luxo exacerbado que implica a estadia na ilha! Dar-vos-ei notícia fotográfica destes dias que espero magníficos, desde logo em muito boa companhia, de amigos soi-disant d'infância.

domingo, 15 de Junho de 2008

Inadaptado

Esqueci-me de dizer - e está tão mau o número de posts de mais este mês que em vez de alterar o post anterior decidi acrescentar mais um, pelo menos já iguala o número trágico de Maio, e ainda a meio de mês vamos - que vi hoje à tarde, por causa dos chuviscos que interromperam o PRB (Processo de Recuperação do Bronze), o filme que trouxe a semana passada do meu clube de dvd (e aproveito para dizer que o clube, que me maravilhou durante tanto tempo por inovador, já teve direito a reportagem na televisão precisamente em atenção à sua inovação). O filme chama-se Inadaptado. Nicolas Cage e Meryl Streep, além da recém oscarizada Tilda Swinton. O filme acaba por ser sobre o guião do próprio filme, e não gostei. Melhor seria se tivesse continuado a ler o meu "Levantado do Chão".

Tonto serei

Não sei dizer bem porquê - não há, na verdade, motivo aparente para isto - mas estou francamente bem disposto. Cantei e sorri abertamente no breve caminho da casa da província para a maravilhosa e inexcedível casa da praia, para onde me mudei neste início de férias sem ocaso predeterminado. Tonto serei, mas cantei e sorri muito. Talvez entusiasmado com a exibição da selecção... turca. Eu, que nem de futebol sou. Talvez só mesmo por estar livre de grandes preocupações ou, pelo menos, de preocupações concretas, porque aquelas que merecem a qualificação de grandes (como as "grandes opções do plano") por cá andam. Nem mesmo rever as fotos de Barcelona me desanimou, apesar de um choque inicial, logo mitigado pela constatação de que em breve voltarei ao bronze que então tinha; quem sabe se até poderei voltar a ter aquele ar descansado. Um dia destes falo-vos, leitores que certamente sois menos cada dia que passa!, do arquipélago a onde vou passar um par de dias esta semana.

Mais meia dúzia de fotos...

Barcelona, un año después...

Pues, hace un año... voltava eu, feliz, de Barcelona. Parti para a capital catalã na própria tarde do regresso de Setúbal, de um outro dia nacional, mais surpreendente talvez, por novo, mais cheio de ilusões também. Estava inocentemente feliz - e não era o único. E assim voltei a Lisboa das terras do Sado, para me surpreender também com mais uma "doença chique", uma espécie de bola de golfe que decidiu aparecer-me no lábio, falha-me a memória se era no superior ou inferior: dizem os chiques que não se diz lábio, que é feio; seria, por isso, na parte de cima, ou debaixo da boca, consoante. Enfim, a bola de golfe desapareceu durante o meu sono de guerreiro cansado, a que tive direito no colo do avião. Não vou narrar esses felizes dias, em que começou a aparecer esse estranho sentimento que queremos que desapareça, mas que sabemos lá, de que "something's not right". Wasn't, I knew. A bola de golfe voltou duas outras vezes, já depois do regresso, para nunca mais ser vista. Aspirina?

Deixo fotos, que é uma das minhas artes.

Reflexões de uns dias...

Não sei se me devo atrever a escrever tudo o que me passou na alma nos últimos dias e que, por lassidão extrema ou falta de oportunidade, não fui deixando testemunhado. Regressei de Viana com um sentimento de dever cumprido, de “terminou bem, enfim” e de certeza de que se outros poderiam ter feito tão bem, dificilmente teriam feito melhor. Acho que podemos orgulhar-nos do que fizemos, em conjunto, não só neste par de dias ao norte, mas no ano e meio de trabalho em comum, de cumplicidades e de desnortes logo corrigidos, de muitos momentos difíceis e de tantos outros hilariantemente chiques. Dificilmente regressarão em tal plenitude estes dias, estes momentos.

No regresso a Lisboa, conta é dada de que algo falta. Ideias não faltam para vencer a crise: amestrar cavalos para conduzir os coches do museu em Belém surge como possibilidade. Estado de sítio, polícia, sirenes, pirilampos. Filas nas bombas de gasolina, notícias de camiões apedrejados, e não querem que se prendam os piquetes? Greve sim, façam. Mas deixem quem quer trabalhar, que o direito ao trabalho está tanto na Constituição como o está o à greve. E depois dos taxistas e dos agricultores, farão greve com certeza os advogados e talvez suspenda a minha suspensão para poder grevisar também.

Brincamos aos dias nacionais nós e está o país neste estado, que de tão sedento de combustíveis não celebra condignamente o apuramento europeu e os golos da equipa maravilha, que não lhe apareçam laranjas pela frente, de tal forma mecanizadas se apresentaram até agora. Novo dia, fim de ciclo. Contas feitas, terminou o melhor ano e meio da minha vida. Não sei por onde vou agora, o que vou fazer ou onde vou estar. Por aí, disseram alguns. Sim, por aí estarei. Não sei por quanto tempo, que este país dá vontade de fugir demasiadas vezes. Mas sempre com as recordações deste tempo esplêndido que de Dezembro de 2006 a Junho de 2008 me viu passar por palácios e guardas de honra, esplendores e noites mal dormidas, parte de uma equipa, essa sim verdadeira maravilha, que derrotaria laranjas, mecânicas ou outras. Vou ter muitíssimas saudades, mas faz parte.

sexta-feira, 6 de Junho de 2008

A música que não me saíu da cabeça

Eis-me, sexta-feira à noite, sentado em frente do computador. Não tenho nada combinado nem a ninguém aparentemente pareceu justo convidar-me para qualquer programa que seja. "Anti-social", como muitas vezes me qualificam, não me parece que deva ficar surpreendido. Enfim, tortura-me mais que metade da minha família esteja a caminho do Algarve para passar o fim-de-semana ao sol. O mesmo acontece com grande parte dos meus amigos e do país em geral, sedento por sol como está.

Apesar das esquálidas cores com que me deparo todos os dias em todos os espelhos (e se os há no meu palácio de trabalho!), não me parece que vá ser desta que recupero as cores de outros tempos. Estarei demasiado ocupado a comprar água-raz e esfregões de palha d'aço, para tentar disfarçar as semelhanças de determinada pessoa com um célebre ditador. Depois, no Domingo bem à noite e cumprindo o que disse aqui há uns meses, estarei a caminho de Viana.

Hoje e aqui fica a música que hoje não me saíu da cabeça, que ouvi ontem num qualquer sítio, e que ilustra a vontade que tenho de sair e dançar um bocado.

domingo, 1 de Junho de 2008

O meu dia...

Chateia-me razoavelmente o espanto que causa a minha afirmação de que 1 de Junho, Dia Internacional da Criança, é o meu dia. Aos 26 anos não vejo, confesso, qualquer outro dia no calendário de dias internacionais, reconhecidos ou não pelas Nações Unidas, que mais se adeque à minha pessoa e dignidade. Ora, temos o Dia do Pai a 19 de Março, sendo que foi uma graça que ainda não recebi. O Dia da Mãe - que varia de dia e de país para outro - é, por razões fisiológicas diversas, inadequado. O Dia dos Avós também, por ora, não dá.

Note-se que até os canhotos têm dia: 13 de Agosto - e eu tinha que ser destro! Ontem também poderia dar, que era dos Não Fumadores, mas eu sou frequentemente classificado como virtual terrorista anti-tabágico por isso também me parece pouco. Depois há dia dos Vegetarianos (1 de Outubro: graças a Nosso Senhor que estou fora), dos Animais (4 de Outubro: atendendo à animada discussão no Parlamento no outro dia, há sempre a nossa parte animalesca que podemos tentar enquadrar neste dia!), da Saúde Mental (vou tendo, às vezes), dos Diabéticos (14 de Novembro: que Deus me livre e guarde, que sabem que eu sou de doces) e até há dia das Casas de Banho (19 de Novembro: como é que é possível???).

Mas Dia do Filho que é bom... nada. O Dia da Mulher não tem contraparte de género: o Dia do Homem podia parecer mal à sociedade que temos. Resta o quê? Haverá coisa melhor do que comemorar o nosso dia com as crianças, 25 anos mais novas que nós mas ainda assim com uma identidade tão semelhante de quem não é pai, nem mãe, nem canhoto? Ser Criança parece-me profundamente boa escolha e, muito embora sem a alegre inocência de outros tempos e outros lugares, apetece-me continuar a celebrar o meu dia neste dia, ad multos annos.