sexta-feira, 25 de Abril de 2008

"Às armas..."

Hoje ouvi, na Assembleia da República, uma quantidade de discursos que qualificaria entre o absurdo e o anacrónico, passando pelo desapropriado e pelo inútil, em que a excepção foi mesmo o discurso do Presidente da República. Apesar de reafirmar a sua não resignação, o Presidente teve, ao menos nisto!, de se resignar e voltar a presidir a uma cerimónia gasta e salazarenta, com discursos glosados e plagiados, citações de discursos citados, de poemas revirados, e sobre a qual sugeriu uma reflexão no ano passado. Pois, se reflectiram, a maioria dos senhores deputados parece ter chegado à conclusão que a manutenção da nada interessante cerimónia era a melhor resposta ao apelo presidencial.

"Às armas...", como diz o hino: alguns militares portugueses acorreram a elas há 34 anos e parece-me inegável que esses militares e a revolução que despoletaram, representavam e cumpriram, em seu dia, a justa ambição do povo português por liberdade e por democracia, a possibilidade de falar, a céu aberto, da política, do futuro, do país e do mundo; sem medos, sem represálias. Tudo isto é justíssimo e o devemos - pelo menos porque a história assim quis que acontecesse - aos militares de Abril de 1974. Mas, como disse um dos pouco apelativos oradores desta manhã quente e solarenga - que debotou (ainda mais, será possível?) os pendões nacionais na fachada da Assembleia - as liberdades e a democracia, devêmo-las também aos militares de Novembro de 1975, que impediram que Portugal virasse resolutamente à extrema esquerda, que se enfeitou e continua a enfeitar de democrática e de libertadora, mas cujo objectivo era (e não será ainda?) impor uma ditadura tão ou mais absurda e violenta quanto a que pretendia derrubar, à imagem e semelhança do criador russo.

A história quis que fosse uma revolução. Poderia ter sido uma transição. É talvez lugar comum dar o exemplo espanhol, mas é facto que aqui ao lado funcionou, numa situação a meu ver bem mais complicada, de tensão que foi permanente e que além de política e social era linguística e herdeira de uma guerra civil absolutamente sanguinária. A revolução também funcionou e elucubrar sobre o que teria sido melhor na versão transitória é porventura escusado, sobretudo em face da recente ideia de um tal presidente do governo espanhol, de remexer em fantasmas há tanto tempo enterrados. No entanto, a obsessão de uma parte do espectro político com a inevitável bondade e elementar eficiência do 25 de Abril está, a meus olhos, como empecilho à conciliação de Portugal e dos portugueses com a sua história e consigo próprios. Não estará nesta obsessão e em tudo o que ela acarreta um dos motivos da descrença e desmotivação pela política, de que bem falou hoje o Presidente da República?

Seria talvez melhor que os partidos - os razoáveis e democráticos - reflectissem sobre a história de Portugal no século XX, mas de uma forma global, não olhando apenas aos descontentes com o regime de Salazar e de Caetano, aos ex-presos políticos e aos que defenderam a liberdade (honra lhes seja feita e tem sido). Olhando aos motivos que levaram à queda da monarquia, ao pouco entusiasmo que deixou a Primeira República, ao efusivo apego a Sidónio Pais, à adesão ao Estado Novo de uma parte extremamente significativa da população - olhando a tudo isto, talvez se percebesse que nem tudo durante os anos da ditadura fascista foi mau e que isso mesmo justifica que haja um saudosismo demasiado arraigado em relação a esses anos. Demasiado porque o simples facto de se tratar de uma ditadura é mau e deveria afastar o saudosismo. Mas, na verdade, os valores conservadores e de segurança que representavam uma parte da realidade da ditadura, são apreciados por uma grande parte da população portuguesa, que tanto vota PS, como votou PSD, que tanto vota em Sócrates como votaria em Ferreira Leite. Porquê, então, dizer que tudo era mau antes? Não contribuirá isso para a descrença - que não é dos jovens mas generalizada - na política e na democracia?

sábado, 19 de Abril de 2008

Candidatos ao estrelato...

Parece que temos um novo candidato ao estrelato... Il Cavaliere, de quem eu falava há um par de dias, louvando o seu bom gosto ao escolher os membros do Governo, quer aparentemente aparecer mais vezes que o nosso bom Sarkozy. Então não é que o senhor, numa conferência de imprensa com o ainda-Presidente-e-futuro-Primeiro-Ministro Putin, simulou o fusilamento de uma jornalista russa (rings a bell?) que ousara perguntar ao russo se era verdade que ele se ia divorciar da Ludmila Putina para a trocar pela Alina Kabaeva, num genuíno remake russo da salada Bruni. Aqui está a imagem que está a levantar ondas de choque - e note-se que ainda nem passou uma semana sobre a eleição de Berlusconi!

Vale a pena, no entanto, uma análise mais profunda deste assunto... de estado. A menina de que se fala é uma ginasta dotada, descrita como a mulher mais bonita da Rússia, "renowned for her flexibility and agility", diz o Telegraph, ouro olímpico em 2004. Diz que o Todo Poderoso Senhor de Todas as Rússias se tomou de amores e fantasias pela flexível jovem cujas habilidades merecem figurar. Refira-se ainda que esta senhora já se rendeu aos encantos da política e é hoje deputada na Duma, pelo que o passo do casamento é apenas o culminar da sua nova carreira, rumo ao czarinato.

quinta-feira, 17 de Abril de 2008

O dedo na ferida

O Papa Bento XVI reuniu-se hoje, por surpresa, com vítimas de abusos sexuais por padres americanos. Assim, de forma inesperada, o Papa pôs o dedo na ferida na questão mais fracturante da Igreja Católica americana, numa tentativa manifesta de reconciliação da hierarquia católica com os fiéis. Depois de ter falado sobre o assunto publicamente em três ocasiões, de forma bastante veemente, o encontro do Papa com as vítimas é um "acto de coragem" como dizia uma muçulmana há uns momentos atrás na CNN.

Não foi ilusão

Não imaginei a estranha conferência de imprensa que vi na SIC Notícias há minutos. Menezes demitiu-se, convocou eleições antecipadas no PSD e instou todos os que se prometeram como líderes a avançar agora, uns contra os outros: não se recandidata. Terá futuro o partido?

O post inesperado

Não serão muitas vezes os posts seguidos sobre futebol neste blog. Não posso, no entanto, deixar de começar esta tentativa de regresso à vida activa do limiar - Abril não é um mês inspirador e este tempo-de-alerta-amareloalaranjado não ajuda - com uma referência ao histórico jogo de ontem. É verdade inegável que o verdadeiro Sportinguista é aquele que fica radiante com a derrota do Benfica. Quando essa derrota é pesada, melhor ainda. E quando essa derrota pesada é infligida, com absoluta glória, pelo Sporting, é oiro sobre verde. Grande jogo, grande Sporting.

Mas não ficamos por aqui: o dilúvio parece-me inspirar-me. Como dizia, acho que é o tempo que não tem ajudado à vontade de escrever, mas palpita-me que quando vier o Verão vou estar na mesma. Por isso não sei se é justo estar a culpar o tempo... O ameaço de Verão rematado com o regresso da chuva e do frio valeu-me uma faringite que teimei em não começar a curar senão ao fim do quinto dia. Não me parece, retrospectivamente falando, muito avisado. Mas é no que dá desrespeitar os conselhos da mãe.

Certo é que, em todo este tempo de ausência, ainda se recontam os votos no Zimbabwe. Diz que vão recontar até gostarem dos resultados. E se não gostarem ainda assim, repetem as eleições. E se ainda assim não der certo, hão-de matar os opositores suficientes para mudar o resultado nas eleições que marcarão a seguir. Estive para escrever aqui sobre o Mugabe, quando os resultados das eleições legislativas, favoráveis à oposição, foram divulgados. Teria dito, dando o benefício da dúvida, que naquele se momento se veriam as verdadeiras cores de Mugabe. Se ficava como um ditador que soube sair com alguma dignidade, como aconteceu com o defunto General Pinochet. Ou se se agarraria ao poder, qual estereótipo. Parece-me que a balança se inclina inevitavelmente - e assim se confirma a opinião com que fiquei, depois de ouvir o discurso que o Presidente Mugabe pronunciou na Cimeira UE-África, em que se arrogava o ter ensinado ao Reino Unido o que era a democracia.

Menos estereotipado, é o reeleito Presidente del Consiglio. Personagem única no panorama político europeu, Berlusconi volta contra o que seria razoável esperar, que era a sua queda, vergonha e crucificação. Nada disso. A estabilidade política inédita que deu a Itália durante uns anos parece ter agradado. E as novidades com que vem agora prometem agradar ainda mais, pelo menos a uma parte da população (como a foto ilustra)... Ora então vejam a senhora de que se fala nas vias de Roma.

Ex-candidata a Miss Itália, ex-modelo e ex-apresentadora de televisão (podem ver mais fotos que o El Mundo está cheio delas), diz que agora vai ser Ministra. Não interessa de quê - "sei que vou tomar posse, só não sei de quê" ou outra coisa do género: não é inédito; passou-se também cá no nosso canto. Não sei se é premunitório e se o Berlusconi III vai durar tão pouco como o Santana I. Se a Senhora Ministra aparecer muitas vezes, espero que dure mais...

sábado, 12 de Abril de 2008

Em que nem sou de futebol...

Eu que nem sou muito de futebol - de vez em quando lá me empolgo - confesso que estive ontem, efeito talvez dos graus de febre que me atormentaram durante o dia, colado ao ecrã, a admirar o histórico jogo no Estádio da Luz. Não sei dizer se foi só o Benfica a jogar mal ou se foi também a Académica a jogar bem. Pareceu-me que uma mistura. Mas gostei de ver.

quinta-feira, 10 de Abril de 2008

Louvor n.º 316/2008

Não tenho estado muito inspirado, mas aqui fica o louvor do dia:

Terminado o difícil e exigente exercício da Presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, considero da mais elementar justiça prestar testemunho público do profissionalismo, da competência e da dedicação de todos quantos nos serviços externos e internos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, dirigentes ou não, contribuíram nas fases de preparação e de execução para que os ambiciosos objectivos traçados para o segundo semestre de 2007 tenham sido plenamente alcançados.
Merecem assim público louvor:
[...]
e) Os elementos da Estrutura de Missão para a Presidência do Conselho da União Europeia que, com a sua grande dedicação e profissionalismo, possibilitaram a organização e o bom desenrolar dos diversos eventos que marcaram o semestre;
f) Os funcionários do Protocolo do Estado pelo cuidado, profissionalismo e empenho pessoal que colocaram em todos os actos que organizaram e em que estiveram envolvidos;
[...]
Só devido à conjugação da vontade, dedicação, disciplina e brio de todos estes funcionários foi possível levar a bom termo o programa que nos tínhamos proposto e fazer da Presidência portuguesa um marco na construção de uma União mais forte para um mundo melhor.

3 de Abril de 2008. — O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Luís Filipe Marques Amado.

sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Um dejá vu...

Os meios de comunicação menos zapateristas estão hoje pejados de imagens que são, para os que estiveram nas principais reuniões da Presidência Portuguesa da UE, um dejá vu. A solidão de Zapatero que hoje resplandece na imprensa não fica a dever-se a aromas fétidos que exale, nem a qualquer tipo de antipatia manifesta do senhor, nem à vontade de pensar na vida, nos touros e nas castanholas. É simplesmente resultado da sua ineptidão mais absoluta fora do castelhano.

quarta-feira, 2 de Abril de 2008

João Paulo II

Faz hoje 3 anos que morreu o Papa João Paulo II. Deixo em baixo um pequeno excerto de um dos meus relatórios de mestrado, sobre o papel dos Papas nas Relações Internacionais dos séculos XX e XXI.

O Pontificado de João Paulo II é revelador de uma nova posição do Sumo Pontífice, embora já João XXIII e Paulo VI se pudessem considerar líderes mundiais, mas menos políticos – a unanimidade em relação à figura do Papa Wojtyła resulta, na nossa opinião, do facto de a sua intervenção na oposição aos regimes comunistas, directa e determinada, se ter baseado não em concepções políticas mas na divulgação da inaceitável negação dos direitos humanos em que se traduziam, pela sua ideologia e pela sua prática.

Timothy Garton Ash – que se assume como liberal agnóstico – considerou que João Paulo II assumiu um papel determinante nas relações internacionais por três motivos: primeiro, era “the head of the world's largest supranational organisation of individual human beings”; segundo, acreditava “with unshakeable conviction that his message was universal, applying equally to every man, woman and child - Catholics and non-Catholics alike”; terceiro “he seized the technological opportunity of bringing that message personally to almost every country on earth, thanks to jet aeroplanes and television”. O autor considera que o Papa foi o primeiro a fazer do Mundo a sua paróquia, algo que nenhum Papa fizera até então, mas algo que também nenhum Papa tivera os meios para fazer.

Narrámos, em boa parte deste relatório, aquilo em que se traduziu a intervenção do Papa nas relações internacionais. Essa intervenção transformou num “actor político” quem tinha sido, na juventude, um actor amador. João Paulo II aliava à mensagem católica uma inata e invulgar capacidade comunicativa, uma “extraordinary ability to speak to a crowd of a million people so that each and every one felt he was talking to them individually”.

A sua nacionalidade polaca, as suas circunstâncias pessoais especialíssimas e o papel que se empenhou por desempenhar na história, na defesa dos direitos do homem (e não apenas em defesa dos direitos dos povos oprimidos do Bloco de Leste, mas em tantos outros aspectos que não é possível referir neste exíguo trabalho), convertem João Paulo II em “uma das personalidades políticas com direito à eternidade nas páginas da História do Ocidente”. Ash resume a intervenção de Wojtyła da seguinte forma: “without the Polish Pope, no Solidarity revolution in Poland in 1980; without Solidarity, no dramatic change in Soviet policy towards eastern Europe under Gorbachev; without that change, no velvet revolutions in 1989.

Apesar de não ser possível provar a essencialidade do Papel do Papa na queda do comunismo, as grandes figuras coincidem nesse sentido. Num testemunho que nos parece pô-lo em evidência, o ex-Presidente do Soviete Supremo, Gorbachev, declarou, em 1992: que “podemos afirmar, hoje em dia, que tudo o que se passou na Europa de Leste no decurso dos últimos anos não teria sido possível sem a presença deste Papa, sem o papel eminente – incluindo no plano político – que desempenhou na cena mundial.

Numa entrevista concedida por ocasião da morte de João Paulo II, Lech Wałęsa disse que sem o Papa o comunismo terminaria na mesma, mas 50 anos depois. O antigo Presidente da Polónia refere que o Papa “a simplement bien rempli sa mission. Il a changé les gens et nous, nous avons changé le système.