"Às armas...", como diz o hino: alguns militares portugueses acorreram a elas há 34 anos e parece-me inegável que esses militares e a revolução que despoletaram, representavam e cumpriram, em seu dia, a justa ambição do povo português por liberdade e por democracia, a possibilidade de falar, a céu aberto, da política, do futuro, do país e do mundo; sem medos, sem represálias. Tudo isto é justíssimo e o devemos - pelo menos porque a história assim quis que acontecesse - aos militares de Abril de 1974. Mas, como disse um dos pouco apelativos oradores desta manhã quente e solarenga - que debotou (ainda mais, será possível?) os pendões nacionais na fachada da Assembleia - as liberdades e a democracia, devêmo-las também aos militares de Novembro de 1975, que impediram que Portugal virasse resolutamente à extrema esquerda, que se enfeitou e continua a enfeitar de democrática e de libertadora, mas cujo objectivo era (e não será ainda?) impor uma ditadura tão ou mais absurda e violenta quanto a que pretendia derrubar, à imagem e semelhança do criador russo.
A história quis que fosse uma revolução. Poderia ter sido uma transição. É talvez lugar comum dar o exemplo espanhol, mas é facto que aqui ao lado funcionou, numa situação a meu ver bem mais complicada, de tensão que foi permanente e que além de política e social era linguística e herdeira de uma guerra civil absolutamente sanguinária. A revolução também funcionou e elucubrar sobre o que teria sido melhor na versão transitória é porventura escusado, sobretudo em face da recente ideia de um tal presidente do governo espanhol, de remexer em fantasmas há tanto tempo enterrados. No entanto, a obsessão de uma parte do espectro político com a inevitável bondade e elementar eficiência do 25 de Abril está, a meus olhos, como empecilho à conciliação de Portugal e dos portugueses com a sua história e consigo próprios. Não estará nesta obsessão e em tudo o que ela acarreta um dos motivos da descrença e desmotivação pela política, de que bem falou hoje o Presidente da República?
Seria talvez melhor que os partidos - os razoáveis e democráticos - reflectissem sobre a história de Portugal no século XX, mas de uma forma global, não olhando apenas aos descontentes com o regime de Salazar e de Caetano, aos ex-presos políticos e aos que defenderam a liberdade (honra lhes seja feita e tem sido). Olhando aos motivos que levaram à queda da monarquia, ao pouco entusiasmo que deixou a Primeira República, ao efusivo apego a Sidónio Pais, à adesão ao Estado Novo de uma parte extremamente significativa da população - olhando a tudo isto, talvez se percebesse que nem tudo durante os anos da ditadura fascista foi mau e que isso mesmo justifica que haja um saudosismo demasiado arraigado em relação a esses anos. Demasiado porque o simples facto de se tratar de uma ditadura é mau e deveria afastar o saudosismo. Mas, na verdade, os valores conservadores e de segurança que representavam uma parte da realidade da ditadura, são apreciados por uma grande parte da população portuguesa, que tanto vota PS, como votou PSD, que tanto vota em Sócrates como votaria em Ferreira Leite. Porquê, então, dizer que tudo era mau antes? Não contribuirá isso para a descrença - que não é dos jovens mas generalizada - na política e na democracia?