Há já demasiado tempo que não recordo um ou outro momento da Presidência Portuguesa da União Europeia... são muitos momentos inesquecíveis, mas hoje merece destaque a histórica Cerimónia de Assinatura do Tratado de Lisboa. Hoje porque foi anunciado que a Cerimónia ganhou um prémio internacional de Protocolo, da
Escola Internacional de Protocolo. Um prémio "
por la complejidad organizativa que ha tenido (...), por la creatividad de su ceremonial y por el escenario innovador." Um prémio em que são citados com inteira justiça três dos responsáveis directos pela organização: o Embaixador Manuel Côrte-Real, Chefe do Protocolo do Estado, o Dr. Vítor Sereno, responsável, na Missão Presidência, pela organização da cerimónia, e o Dr. Luís Bernardo, Assessor do Primeiro Ministro para a Comunicação Social e
mastermind da mediática cerimónia.
A Assinatura do Tratado, apenas 4 dias depois da UE-África, a histórica e extenuante cimeira que nos consumiu durante semanas, foi um enorme desafio, um que tenho a certeza que todos os que estiveram presentes recordam com especial carinho - bem sei que é uma palavra lamechas para usar, mas acho que é uma lamechice apropriada e por isso consentida. Os que estivemos directamente implicados na organização deste momento histórico para Portugal e para a Europa, tínhamos a certeza da singularidade do momento. Trabalhar, durante uma semana, dentro do Mosteiro dos Jerónimos, numa sala gótica com porta para a fantástica Igreja de Santa Maria de Belém de um lado, e para o Tejo do outro, é certamente uma experiência difícil de repetir.
Ver surgir um claustro, pérola do que há de mais português em termos de arquitectura, totalmente convertido à modernidade e às exigências dos
media não foi o mais fácil, ainda que o resultado tenha mais do que compensado esse esforço. Momentos incríveis como aquele em que, dois dias antes, ficámos sem luz, mas continuámos a trabalhar como se nada fosse! O dos repórteres russos que faziam a cobertura dos preparativos da cerimónia, a partir do palco da RTP em frente à Porta Sul. A expulsão dos cogumelos pelos Intendentes então "sub", apesar do frio. A chegada do Tratado (ou das cópias, nunca cheguei a perceber) e o ar embevecido da Manuela a pousar com ele, qual guardiã! A azáfama de convites de última hora, de um
briefing interminável, de uma discussão sobre carros e cortejos, de um ensaio que nunca existiu!
E finalmente o raiar de um dia histórico com uma discussão com polícias (ganhámos! e não, não éramos imprensa). As chegadas, formais e elegantes na porta principal, mais agitadas na segunda porta. Presidentes de Tribunais, Ex-Presidentes, Ministros, Deputados, Cardeais... ex-quase tudo, que quase mortos estiveram para ser convidados! Sentimento de participar na história, burburinho das grandes ocasiões, dos dias que não se esquecem. E chegou finalmente a inigualável criatura que insiste no estrelato e que se dirigiu à imprensa, deixando o Primeiro Ministro e o Ministro Amado à espera. Mas subimos. Estavam todos. Presidentes (até um que não assinava!), Primeiros Ministros, Ministros sem fim, a ver o Tejo, numa varanda de uma sala criada para este dia.
Vai começar: "Sr. Presidente, não se importa? Temos de ir." (nunca mais, provavelmente, poderia dizer isto à estrela, tive de aproveitar a oportunidade de lhe interromper o café). Descemos e através do Claustro sentia-se já a certeza de que tudo iria correr bem (certo, certo é que ninguém ainda tinha visto a Dulce Pontes!). Tudo no palco, quase todos já sentados e começa um drama já familiar à União Europeia: a
crise da cadeira vazia. Há que resolver. Tudo se senta. Gordos e magros; giros e feios; importantes e menos. Ainda dei um salto ao túmulo do Camões para ver se ele estava disponível... mas diz que não. Os meninos do coro da Joana cantaram, ouvi dizer que menos bem. A mim pareceu-me bem, sobretudo impôs respeito e solenidade para o início da cerimónia, com 3 discursos que não ouvi nem nunca li, confesso.
Enfim a assinatura, países e cores sem fim, uma coreografia arriscada numa cerimónia tão solene, mas um sucesso televisivo e muito entusiasmante para os que tiveram a honra de ali estar. Porque podem comprar-se bilhetes para concertos, ainda que no mercado negro; mas nesta cerimónia irrepetível só estivemos uns poucos. Ali sim há motivo para ter uma t-shirt a dizer "Eu estive lá!". "Portugal": nervos, abraços, comoção, aplauso mais entusiasmado, sentido e demorado. Muitos sorrisos. Em toda a volta, o orgulho de todos pela cerimónia que decorria era evidente. A Dulce Pontes já teve dias: a roupa estava toda errada (dizem que na cabeça eram papelotes, outros que eram algas); a voz não estava melhor. O "Amor a Portugal" foi a escolha acertada ainda assim. E com esta cerimónia penso que sentimos que cumpríamos esse amor, que se tornou mais latente à medida que a Presidência chegava ao fim.
Cá fora, a fotografia de família, "perfeita, como sempre" (sic, diz quem sabe). Enquadramento inexcedível - a muito, muito custo! - colocação perfeita pelos exemplares OLs, bom ambiente no auge! Eléctrico do Tratado, outro sucesso, mais um momento de perfeita simbiose entre a tradição de Lisboa e a modernidade do veículo, rumo ao mais único dos museus portugueses, o Museu dos Coches, onde o Presidente da República ofereceu um almoço. Cenário inexcedível uma vez mais, com um protocolo diferente para uma ocasião distinta. História; apesar dos atrasos e das saídas intempestivas, dos cigarros na rua e das ausências na mesa, dos croquetes negados e da falta de trocos para pagar o almoço (ironias...). E quando todos saíram, foram os abraços, os sorrisos mais sinceros, a felicidade mais absoluta, pela vitória de uma Presidência que poderia ter começado melhor, mas que dificilmente poderia ter tido um final mais brilhante. Parabéns a nós!