domingo, 30 de Março de 2008

Sarkozy Económico

Acabo de ouvir o discurso do Presidente da República Francesa no Guildhall de Londres e só posso recomendar que o ouçam, pelo menos os que têm algum interesse em economia e em política. É um discurso longo mas mostra, na minha opinião, que no Presidente Sarkozy há mais leader-material que em qualquer outro político da Europa actual - precisa apenas de umas afinações, como a forma de usar casaca e condecorações correctamente.

A clareza com que expõe as suas ideias, a ousadia das mesmas ao desafiar a tradicional rivalidade franco-inglesa e o estilo tão pouco usual quando se está de casaca e ante uma das mais ilustres assembleias britânicas - a City de Londres - faz deste discurso uma lição de política. É, certamente, pouco convencional. Mas se calhar é disto que a Europa precisa: alguém capaz de dizer que temos de mudar, de questionar as ideias preconcebidas, de arriscar para conseguir sobreviver aos desafios da modernidade. Achei francamente interessantes as ideias sobre os desafios ambientais, sobre a China e a reciprocidade e sobre África.

sexta-feira, 28 de Março de 2008

Ainda a Ilha e a partida

A Ilha de Moçambique - a chegada e a Fortaleza

A caminho da Ilha

Maputo... ou Lourenço Marques

Relato de uns dias em Moçambique

Foi uma experiência inesquecível, a minha breve visita a Moçambique, na comitiva do Presidente da República para preparar e executar a visita de Estado que o Presidente efectuou à antiga colónia portuguesa. Sempre me intrigou o fascínio de tanta gente por África. Nunca achei, de resto, que me fosse impressionar demasiado. Mas devo confessar que me enganei. Depois de um inteiro Domingo de Páscoa a bordo da TAP - regado a amêndoas, é certo, a acompanhar refeições realmente óptimas - chegámos a um calor intenso mas não tórrido, tornado especial pela chuva muito recente. África enfim. Já tinha estado em Marrocos e na Tunísia. Mas isso, sei hoje e já suspeitava, não é bem África...

Eu e a minha Joaninha encontrámos o nosso carro e conhecemos o nosso impecável motorista, o Gabriel. Rumámos ao (excelente) Hotel Avenida, no centro de Maputo; pelo caminho ficámos a saber onde moram Dhlakama e Graça Machel, vimos casas menos simpáticas e lutámos com um mosquito sob o medo de que o repelente recém-aplicado não tivesse o efeito pretendido.

O Avenida fica em frente da Embaixada de Portugal - que tem, há que dizer, uma vista luxuriante sobre a Baía de Maputo, alcançando até à Inhaca e à quase-deserta e perfeitamente inabitada Ilha dos Portugueses. A descrição que me fizeram destas duas ilhas torna uma futura visita a Moçambique ainda mais apetecível. Nessa mesma noite conhecemos o famoso Hotel Polana e parecíamos vagamente transportados, ao entrar no imponente edifício colonial, ao luxo dos anos 50, que ali é discreto e nada ostentatório, mas se sente como se de Lourenço Marques se tratasse ainda. O jardim e a piscina são especialmente magníficos, reinando acima do Índico como a pérola social do país, ponto de encontro de políticos e homens de negócios, local de reuniões de amigos, de whisky e de gin tónico.

No dia seguinte, ao abrir a janela, fiquei como que embriagado com a vista do meu quarto: o verde do Maputo é impressionante e cativante. Olhando em redor nota-se a influência arquitectónica dos portugueses e na cidade vê-se Portugal em todos os cantos, dos bancos ao café. As histórias da visita em si vão ficar por contar. Deixarei algumas fotos dos dois dias na capital, que foram essencialmente de muito trabalho, para preparar o fantástico banquete no Polana, num cenário digno de filme. Contava então ficar ter o dia seguinte para passear um pouco pela antiga Lourenço Marques e fazer algumas compras mas foi nessa noite que fiquei a saber que partia para a Ilha de Moçambique, outrora capital do país, na manhã seguinte, naquele que seria o verdadeiro contacto com o país real.

Foi com um look mais tropical que me apercebi da verdadeira dimensão do país, com mais de 2000 kms de costa que vi do alto, na viagem do Maputo para o aeroporto de Nampula, a segunda cidade do país, no interior da província do mesmo nome. Quando começámos a sobrevoar a província de Nampula, foi o deslumbre da paisagem extraordinariamente irregular, com blocos de pedra que surgem da planície, como se fossem monstros adormecidos. Dizem-me que é uma paisagem única em África e é, pelo menos, surpreendente e impressionante, como poderão ver nas fotos. A recepção ao Presidente em Nampula foi realmente extraordinária, com centenas de pessoas no aeroporto, batuques, danças e eufóricos gritos.

Nova aventura, a viagem no C-130 da Força Aérea de Nampula para o aeródromo do Lumbo. Foi, pois, em relativa escuridão que aterrámos no pequeno e rústico aeródromo, onde a pista tem a largura de uma estrada nacional, com pedras, e onde o hangar já o foi. A recepção foi incrível: à porta do aeródromo, centenas e centenas de pessoas agitavam bandeiras de Portugal e Moçambique, com sorrisos espontâneos e deliciosos a responder às máquinas fotográficas. A caminho da ilha, tive o privilégio de ouvir as mais divertidas histórias, sobre a Ilha, a sua história e as suas tradições, sobre os tempos em que era um selecto local de férias, até à construção da ponte, que levou ao rápido crescimento da população e ao correspondente decréscimo da qualidade de vida e da capacidade da Ilha. Onde deveriam viver no máximo 4.000 pessoas, vivem hoje 14.000.

Como já disse ontem, a recepção à entrada da Ilha foi apoteótica, como penso que resulta do vídeo. Foi momentos depois de a beleza natural da Ilha me ter convencido: é natural a classificação como Património da Humanidade, mesmo com a degradação a que se assiste lá dentro. Na visita à Fortaleza de São Sebastião, entre a minha sessão de fotos às muralhas e aos canhões, apareceu o Soldado Wilson que me pediu que lhe tirasse uma foto, para recordação! Espero que um dia ele possa ver esta foto, mas sinceramente não sei como... Depois de saqueado o almoço e tocado o Índico, com recados para o Paulo Bento e promessas de mochilas, voltámos ao Lumbo, a Nampula e depois, com um rubro pôr-do-sol como pano de fundo, ao Maputo. Na manhã seguinte chegámos a Lisboa escoltados por dois F-16: acima do limiar.

Fico, essencialmente, com vontade de voltar; talvez até de me tornar empresário e partir por essa África fora, a África que tantas oportunidades volta a prometer e que tanto necessita de investimento e de trabalho, além de solidariedade e de mobilização social, mas sobretudo de muito rigor na aplicação dos fundos que se conseguem. Fico a pensar nisso...

Saltos para uma "entente formidable"

O Presidente Sarkozy terminou ontem uma visita de Estado de dois dias ao Reino Unido (pronunciado "reinô unidô" - private joke) em que a estrela foi, sem dúvida, Madame Sarkozy e em que o Presidente francês prometeu dar o salto da centenária "entente cordiale" para uma "entente formidable" - com promessas de cooperação económica e científica, além de cooperação militar mais acesa. Teve direito a chegada grandiosa a Windsor, incluindo vénia de Madame Sarkozy à Rainha Isabel II, e a um banquete esplendoroso que recebe hoje honras de dupla página no Público. Fica a imagem e um vídeo, para mostrar como os nossos históricos aliados sabem receber como poucos:

Mas a melhor imagem, na minha humilde opinião, é a que se segue e que ilustra os saltos que implica esta transformação de "cordiale" para "formidable"... Já em Dezembro falei disso e aqui está a prova... admito que a Rainha o bata por alguns milímetros enquanto a pobre Madame Sarkozy é forçada a rastejar para não aparecer como a torrear sobre o marido.

quinta-feira, 27 de Março de 2008

.mz

Atarefados momentos no final da Semana Santa impediram os meus graciosos comentários sobre as liturgias de Quinta e Sexta-feira Santas... ficará para uma outra ocasião. Hoje dou conta do meu regresso de mais uma viagem, desta feita de trabalho, a Moçambique. Do Maputo posso dizer pouco; trabalhei de um lado para o outro e pouco vi, mais que o elegantemente colonial Polana e o antigo Palácio do Governador da Província, a Ponta Vermelha. Mas tenho de dar conta do fascínio pela recepção que tivemos ontem na Ilha de Moçambique, arrepiante e inesquecível. Contarei um pouco mais, mais tarde, com direito a fotos. Hoje deixo-vos o vídeo que fiz à entrada da Ilha, depois da ponte e da portagem paga. Dá vontade de voltar...

(não estando o Presidente, a recepção não seria talvez tão colorida...)

quinta-feira, 20 de Março de 2008

Vergonha suprema

Estou chocado com o vídeo que acabo de ver no Público, de uma aluna a agredir uma professora, tentando reaver o telemóvel que esta lhe tinha tirado. Quando, no 7.º ano e por força da falência do meu colégio, fui para a escola pública, constatei - com alguma surpresa - que o que me tinham ensinado no colégio não tinha aplicação universal: afinal, quando alguém entrava na sala de aula, nem todos se levantavam, em sinal de respeito. O momento de embaraço existiu, quando pela primeira vez sucedeu que alguém entrasse na sala, onde meia dúzia de meninos estava entre repetentes com mais um metro que nós: os meninos levantaram-se, entre risotas dos restantes. Já isto me pareceu grave, mas achei que era uma espécie de adaptação aos tempos.

Hoje apesar de ter noção de que o conceito que mais erosão sofreu na nossa sociedade é precisamente o de "respeito", não posso deixar de ficar chocado com a degradação desta juventude à qual ainda pertenço. O que é isto? Que país é este? Que futuro tem Portugal com esta juventude sem respeito por quem é suposto ter sobre eles autoridade e ensiná-los? Onde falhámos? Permito-me arriscar que a falha está em casa, na vida desregrada e permissiva, desde a mais tenra idade, na cultura da birra. E o mais grave é que não vejo maneira de isto melhorar.

quarta-feira, 19 de Março de 2008

Soares e D. Sebastião

O Presidente Mário Soares [e com isto tento, deliberadamente, mudar o hábito de chamar os ex-presidentes apenas pelos seus nomes] encreveu ontem um artigo no Diário de Notícias em que fala de três temas: o Iraque, um novo Museu de Elvas, e a morte de D. Luisa Isabel Álvarez de Toledo y Maura, Duquesa de Medina-Sidonia. Interessante a última das partes, em que o ex-Presidente da República traça uma breve história da vida da "Duquesa Roja" ("tornou-se em adulta republicana e anarquista, depois de um casamento infeliz, que desfez, assim que lhe foi possível") que morreu na semana passada, conseguindo depois de morta chocar novamente a Espanha e a sua família: a Senhora Duquesa casou in articulo mortis com a sua amiga Liliana María Dalhmann, a quem deixou os seus bens!

Enfim, o mais interessante é o relato do Presidente Soares sobre um jantar que teve, sendo Presidente, no Palácio da Duquesa, em Sanlúcar de Barrameda, em que a Duquesa lhe mostrou um documento sobre a célebre Batalha de Alcácer-Quibir: "Lembro-me que referiu e mostrou um velho relatório que encontrou nos seus arquivos, de um espião de Felipe II de Espanha, que assistira à batalha de Alcácer-Quibir e que assinalava ao Rei que D. Sebastião não tinha morrido e fugira." Termina o Presidente Soares - ele próprio pseudo-D. Sebastião nas eleições de há 2 anos - agitando o mito sebastiânico: "Será que os sebastianistas teriam alguma razão ao afirmar, naqueles tempos, que D. Sebastião não morrera em Alcácer-Quibir?! Eis um enigma que alimenta há séculos a nossa História e a imaginação de muitos portugueses."

terça-feira, 18 de Março de 2008

La Pasión según Sevilla

Sou, manifesta e indesmentivelmente, um fã da Semana Santa. Já ontem dei a entender isso. Chamem-me beato, conservador ou antiquado, o que quiserem. As minhas convicções religiosas são parte da minha vida e não faço qualquer questão de o ocultar. Vou à missa menos regularmente do que gostaria mas tento sempre, na Semana Santa, cumprir os rituais a que convida a Igreja, de Domingo de Ramos à interminável Vigília Pascal.

Poucas vezes fiquei tão impressionado, no entanto, como quando estive em Sevilha e presenciei a forma singular como os sevilhanos celebram a Semana Santa, com magníficas procissões de "nazarenos" (nada tem a ver com a nossa Nazaré... tanto quanto me é dado saber) e de colossais andores coroados de flores e imagens religiosas, de Cristos, caminhando ou crucificados, de Virgens das Dores e de outras cenas dos Evangelhos.

Poderia ter-se a impressão que o sentimento e a fé se perderiam entre os ouros dos andores e dos pormenores. No entanto, o que acontece é que os aromas de cera e de incenso se unem aos sons dos passos dos penitentes, das bandas e das fanfarras, às cores dos nazarenos, dos mantos das Virgens e das mantillas, ao brilho das velas e dos flashes, resultando numa atmosfera verdadeiramente solene e comovente. No ABC de hoje há um link para uma página que transmite em directo as procissões deste ano. A quem interessar, recomendo uma olhadela: http://www.pasionensevilla.tv/.

Mais do que a parte oficial dos cortejos, que passam todos pela mesma Avenida de la Constitución e pela Catedral, é extraordinário assistir-se às viragens nas esquinas caprichosamente apertadas de Sevilha, às entradas e saídas das igrejas, aos pregões das janelas. Ficam algumas fotos, que me desculpem os descrentes.

segunda-feira, 17 de Março de 2008

Domingo de Ramos

Ontem foi Domingo de Ramos. É o primeiro dos dias da Semana Santa e um dia em que se celebram, por esse Portugal fora, inúmeros actos evocativos da Paixão de Cristo. Na minha santa terra lá se fez, um ano mais, a Procissão dos Passos, resgatada há apenas 8 anos de 30 anos de vazio, que, apesar da dignidade, tem perdido participantes, ano após ano. Fica marcada pelo canto triste e solitário da Verónica, a mulher que limpou o rosto de Cristo no caminho para o Calvário:

"Oh vós todos que passais, que passais pelos caminhos: parai e vede, se há dor semelhante à minha dor!".

Em Óbidos as celebrações da Semana Santa valem uma visita. Recomendo a Procissão do Enterro, na noite de Sexta-feira Santa, impressionante, com a vila às escuras e apenas archotes a alumiar o caminho de uma arrepiante imagem do Senhor morto.

Monsaraz again

Três dias extenuantemente preenchidos marcaram o final da semana e o início do fim-de-semana. Lisboa do Castelo à Ajuda, passando pela Baixa e pelo Lumiar: palácios, igrejas, museus. A companhia não podia ser melhor, sobretudo a nacional, que me perdoe a aristocracia nórdica!

Voltei ao Alentejo, Évora agora. Mais palácios e igrejas... Enfim, uma herdade impressionante, a do Pinheiro, da Fundação Eugénio de Almeida, com máquinas do mais moderno que há. Regresso a Monsaraz. Acho que na semana passada não enfatizei o suficiente: ide a Monsaraz! A vista sobre o lago - a albufeira do Alqueva (não a barragem, conforme me corrigiram) - é digna de filme, de pintura, de muitas fotos que volto a não ter para mostrar... mas o deslumbre dos nossos companheiros de viagens, que alteraram o programa todo para incluir a vila-castelo na futura visita, fala por si. É um dos cenários mais impressionantes do país, não tenho dúvidas.

Bem, eram 20h e eu estava a sair da base aérea de Beja... tinha um jantar na província, que tinha começado às 19h e estava a 3 horas de caminho... não fosse a perícia do nosso driver e tinha faltado ao jantar. :)

domingo, 9 de Março de 2008

200 anos

O Presidente da República esteve estes dias no Brasil a comemorar os 200 anos da chegada da Família Real e da Corte ao Rio de Janeiro, a 8 de Março de 1808 [contrariamente ao que anuncia o site da Presidência, não foi "D. João VI" que chegou ao Brasil, mas D. Maria I e a sua Corte, sendo regente seu filho, o Príncipe D. João, futuro D. João VI].

Loucos e feios partiram para fugir à humilhação de uma abdicação forçada, sorte que calharia a grande parte das Cortes europeias. Muito se falou estes dias na televisão desses históricos acontecimentos, de como isto foi um acto de esperteza face aos invasores franceses e de como foi importante a presença da Família Real no Brasil para manter o país unido. Os brasileiros parecem começar a olhar de outra forma para D. João VI e para a importância que teve a transferência da Corte no desenvolvimento do país, tornado ele próprio uma espécie de Europa durante mais de uma década.

Hoje o Presidente está no Brasil também a comemorar 2 anos de mandato. A 9 de Março de 2006 tomava posse na Assembleia da República e proferia um discurso excelente, longo mas cheio de conteúdo e falava de uma outra viagem para o Brasil, parágrafos que me ficaram na memória pela excelência e que me ocorre repetir aqui:

"Faz hoje precisamente quinhentos e seis anos que partiu a frota de Pedro Álvares Cabral para a sua viagem imortal de aventura e descoberta. O embarque tinha ocorrido com grande pompa no dia 8 de Março, data fixada para a partida. Todas as condições pareciam reunidas, mas faltou qualquer coisa. O vento mudou, e a frota de Cabral teve de aguardar no estuário do Tejo pelo dia seguinte, 9 de Março de 1500. Foi só então que zarparam todas as naus e caravelas, com as brisas propícias por fim enfunando as suas velas. E dali a quarenta e quatro dias arribaram a uma angra do outro lado do oceano. Porto Seguro, assim a baptizou o Capitão-Mor. Foi aí que desembarcaram em segurança no Novo Mundo.

Quando hoje, tantos séculos volvidos, invocamos a memória colectiva, não pretendemos tão somente celebrar o nosso passado. Pelo contrário! Uma Pátria viva oferece-nos inúmeros episódios exemplares que, sobretudo, servem de inspiração para o presente e nos dão esperança quanto ao futuro.

Desejo que a minha eleição para Presidente da República fique associada a bom tempo para a vida do País, que brisas favoráveis o conduzam no rumo certo, que os Portugueses reavivem a esperança e ganhem o ânimo e a crença que permitam conduzir a nau colectiva para além da distância, da incerteza e do desconhecido, até porto seguro."

sábado, 8 de Março de 2008

Crónicas do Alentejo IV

Já em Lisboa, dou conta do que foi o meu segundo dia no Alentejo. Antes de mais deixo algumas fotos que fiz à saída da Flor da Rosa, desde a vista da janela donde vos escrevi as primeiras crónicas, a sala com um belíssimo quadro de um Prior do Crato (não fixei qual), autoria de Luís Pinto Coelho, o silencioso claustro com a Cruz da Malta, até à vista com sol do Convento. Programado o GPS, parto eu pela mesma estrada que ontem, francamente confundido com o Norte e o Sul, sem perceber o meu destino. Rumo a Reguengos de Monsaraz, para visitar a Herdade do Esporão, recomendada em directo ontem por uma amiga e ex-professora alentejana.

Não sei se o caminho que o aparelho indicou era o mais rápido ou o mais curto, era certamente o mais inconstante, entre curvas sensualmente tortuosas e rectas aparentemente intermináveis. Fui tirando fotos, do que me parecia mais pitoresco e digno de paragem; abandonei a música clássica pelo habitual pop e rock, mas os repertórios desta manhã eram francamente maus. O verde abundante dos campos e o verde seco das oliveiras, banhados pelo sol do fim de manhã, tornaram o passeio profundamente agradável.

Chego a Reguengos e tenho um choque… depois das pitorescas vilas que visitei ontem, deparo-me com uma deprimente vila alentejana, descaracterizada e com uma das igrejas mais feias que vi até hoje, de um neogótico tão pouco português, a dominar a praça… começo a pensar se não teria feito melhor ir para Évora – apesar de ainda esta semana ter de lá ir em trabalho! Sigo adiante para tentar tirar do alcance da vista a igreja e uma placa animadora, castanho-património, indica Monsaraz… sigo? Não, falta o Esporão.

Volto atrás, fechando os olhos aos crimes pseudo-arquitectónicos, e pergunto a um nativo pela Herdade. Atabalhoada a resposta, eventualmente consigo encontrar o caminho para a propriedade de 1800 hectares, almejando comprar o presente do Dia do Pai e, quem sabe, até o presente para o jantar de anos de hoje. Missão cumprida. A menina que me atendeu, simpática, estranhou eu ter sido aluno, há mais de 10 anos!, da jovem e divertida professora que ontem lá tinha estado com um grupo de alunos. Eu, que pareço mais velho que ela quase? Desfiz ilusões quanto ao meu estado provecto, mas notei alguma dúvida na menina.

Enfim, rumei, abstémio engarrafado já, à deslumbrante vila de Monsaraz, uma das “Terras do Grande Lago”. Gostei do slogan épico, relativo ao impressionante Alqueva, que domina o horizonte. A vila é deliciosamente plena de recantos, de ruas estreitas cheias de xisto e de arcos, de ângulos tentadores. Onde ontem faltavam restaurantes, hoje faltava tempo para parar num dos muitos e com tão apetitoso ar! Apenas tempo para umas fotos do alto das torres do castelo, bafejado pelo vento e pelos turistas, lusos e castelhanos-em-dia-de-reflexão, à procura de alguma inspiração nas deprimentes e 'renhidas' eleições do país vizinho.

Última paragem antes do regresso a Lisboa: Mourão. Quem vai à espera, como ia eu, de uma nova Monsaraz, fica desapontado. Mas vale pela travessia idílica da barragem e pela vista que se tem do alto da muralha do Castelo, com Monsaraz ao fundo, presidindo a paisagem, na outra margem do grande lago. Acelerando um pouco mais que o costume, para chegar a Lisboa a horas decentes dos vários compromissos da tarde-noite, eis-me enfim terminando o relato da minha aventura solitária mas memorável, pelas estradas do Alentejo fora. E tenho a noite grátis deste ano à espera, pelo que crónicas destas voltarão para empatar um pouco mais a vossa vida, estimados e ávidos leitores.

Crónicas do Alentejo III

Ainda antes de deixar a Flor da Rosa, dou conta de uma noite muito mal dormida, atestada, de resto, pelas olheiras com que se me deparam os espelhos. Sem motivo aparente, uma insónia atravessou-se na minha noite e resultou em muito poucas horas de sono. Enfim, tudo claramente compensado pelo melhor pequeno almoço dos últimos tempos. Já sabe quem esteve na reunião de Albufeira que eu sou dado a um buffet de doces... e os do pequeno almoço que acabei de tomar eram perfeitamente adoráveis... pequenas bolachas de amêndoa, bolinhos de coco, uns bolos de fatia óptimos e uns crepes que conseguiam ser melhores que os meus! Rumo agora aos montes alentejanos e darei conta ilustrada do resto da minha viagem quando regressar a Lisboa esta tarde.

sexta-feira, 7 de Março de 2008

Crónicas do Alentejo II

Já depois de escrever as linhas da minha crónica, desci para jantar. Expectável como os chaparros nesta terra, era um solteiro diante de uma dezena de casais quasi-românticos. Tinha levado o meu Primo Bazílio por companhia, para não ter de passar a noite a contemplar esfuziantes sorrisos de casais apaixonados. Não que isso me afecte de sobremaneira agora, mas não me apetecia. Dediquei-me pois, à escolha dos manjares que acompanhariam a leitura de Eça. Claro está que a abstinência quaresmal ficou no quarto. O paté de caça estava divinal. O creme de coentros menos mau. O bacalhau razoável. Enfim, o buffet de doces era de chorar por mais…

Entre um prato e outro, li uma passagem que, neste contexto, não podia ter mais graça. Ainda gargalhei em silêncio:

E Julião expôs dogmàticamente:
– O casamento é uma fórmula administrativa, que há-de um dia acabar… – De resto, segundo ele, a fêmea era um ente subalterno; o homem deveria aproximar-se dela em certas épocas do ano (como fazem os animais, que compreendem estas coisas melhor que nós), fecundá-la, e afastar-se com tédio.

Escusado será dizer (ou talvez não seja) que repudio tudo isto, conservador e romântico até ao tutano como sou. Mas teve graça, pela minha presença solitária no meio dos apaixonados.

Crónicas do Alentejo

Quis Deus ou o destino que chegasse sozinho ao Alentejo esta manhã. É o último fim-de-semana que tenho para gozar a minha noite grátis do ano passado nas Pousadas e, face à ausência da companhia convidada, eis-me a gozar a solidão e o silêncio alentejano. Estrada fora, penso se o GPS se está a enganar… afinal, está a levar-me pelo mesmo caminho que me levou à Serra da Estrela no fim do ano. Mas vejo que não. Saída da autoestrada, saída do IP, e logo começam as pitorescas rectas alentejanas. O termómetro promete. É uma Primavera antecipada, um Inverno diferente.

Flor da Rosa. Convento e pousada. Sede histórica do Priorado do Crato, a sede da Ordem de Malta em Portugal. Nobres, infantes e reis estiveram entre os que ostentaram este título sonante de Prior do Crato. É imponente na sua simplicidade acastelada. Saio do carro e sinto o calor alentejano da hora de almoço, origem de uma deliciosa vontade de moleza prolongada, de uma languidez romanceada. Como podem ter reparado pelos meus escritos de outros dias e de outras festas, gosto quando tradição e modernidade se aliam. E assim é nesta pousada; e recomendo.

Feita a visita de reconhecimento, lá vou eu à descoberta do Alentejo. Primeiro o Crato, mesmo aqui ao lado. É pelo caminho que decido ter a Antena 2 como companhia desta viagem, para quebrar o silêncio tão típico destas terras. Muito calor, demasiado para a roupa que tenho. Passeio a pé, em busca de um restaurante… e continuo a passear, com a ajuda de um pequeno guia em inglês: era o que havia. Finalmente encontro e lá quebro eu a abstinência de mais uma sexta-feira da Quaresma, que este ano não tem estado a correr muito bem…

Rumo ao desconhecido, pelos montes, fascinado. Passo Alter e vejo “Anta”… viro, e a caminho do neolítico encontro um interminável rebanho de ovelhas, intransponível. É pelo caminho que encontro uma vaca verdadeiramente suicida, arrojadamente lançada em busca de alguma erva mais apetecível, além farpado. Fronteira, a caminho de Estremoz. Pequenos rios, montes e oliveiras e finalmente a vila castelo, com a torre da Pousada Rainha Santa Isabel erguida, imponente, a planície em redor. Apesar de a minha máquina estar de férias no México recorri ao telemóvel para saciar o meu fascínio pela arte da fotografia. Nada, senão a memória, capturou os deliciosos odores de chaminé, os ruídos de vila ancestral convertida aos novos tempos, sob um sol extraordinário.

Um primeiro gelado do ano, o novo de limão da Olá, marcou o regresso ao carro. Bom. E que sede que tinha. A caminho de Monforte, um tango de Piazzolla, Mozart por Maria João Pires. Várias voltas a Monforte, seguindo instruções de quem sabe! E finalmente, no regresso à Flor da Rosa, as cores do céu iluminaram-me o fim de dia. Já falei do meu fascínio pelo pôr-do-sol. E quantas vezes parei o carro para fotografar, com o pobre sucedâneo da minha Canon, as imagens pitorescas que os montes e as nuvens avermelhadas formavam à minha frente… e na rádio Pavarotti cantava “o sole mio”. Perfeito.

quarta-feira, 5 de Março de 2008

E ainda...

A BSC no Tratado...

O nosso Tratado...

Algumas das fotos do álbum que me apetece começar a fazer, a crónica de uns dias inesquecíveis. É na verdade uma pequena amostra: briefings, assinaturas múltiplas, cogumelos, guardiãs, cerimónia, encharcada, absoluta felicidade...

Another good song...

Perfoming: Just Jack. Song: Stars in their eyes...

Algo interessante, enfim...

Será que os americanos acordaram para a vida e deixaram de acreditar no "eu vou mudar o mundo" de Barack Hussein Osama?... desculpem, é Obama. É muito bom ter ideias para mudar o mundo. O problema é ter apenas ideias "de mudar o mundo", não conseguir concretizar, no fundo não ter um plano de acção. É assim que, da minha relativa distância face às eleições americanas, tenho de saudar enfim três vitórias da ex-Primeira Dama Hillary Clinton nas primárias democratas. Clinton, mulher multi-atraiçoada e claramente determinada, inspira-me muito mais confiança que Obama e espero que as vitórias de hoje no Texas, Ohio e Rhode Island mudem o rumo das primárias democratas e levem a senhora à nomeação e, mais tarde, à Casa Branca.

segunda-feira, 3 de Março de 2008

O Tratado em imagens...

As minhas fotos da Assinatura do Tratado sobre a qual acabei de escrever... é uma escolha difícil, excedi-me na dedicação à máquina fotográfica, sem deixar de me dedicar ao trabalho. Resultado são as mais de 500 fotografias, entre preparação, cerimónia e after-party. Para já as institucionais... a evolução naqueles 3 dias até à cerimónia.

Imagens da Presidência - IV

Há já demasiado tempo que não recordo um ou outro momento da Presidência Portuguesa da União Europeia... são muitos momentos inesquecíveis, mas hoje merece destaque a histórica Cerimónia de Assinatura do Tratado de Lisboa. Hoje porque foi anunciado que a Cerimónia ganhou um prémio internacional de Protocolo, da Escola Internacional de Protocolo. Um prémio "por la complejidad organizativa que ha tenido (...), por la creatividad de su ceremonial y por el escenario innovador." Um prémio em que são citados com inteira justiça três dos responsáveis directos pela organização: o Embaixador Manuel Côrte-Real, Chefe do Protocolo do Estado, o Dr. Vítor Sereno, responsável, na Missão Presidência, pela organização da cerimónia, e o Dr. Luís Bernardo, Assessor do Primeiro Ministro para a Comunicação Social e mastermind da mediática cerimónia.

A Assinatura do Tratado, apenas 4 dias depois da UE-África, a histórica e extenuante cimeira que nos consumiu durante semanas, foi um enorme desafio, um que tenho a certeza que todos os que estiveram presentes recordam com especial carinho - bem sei que é uma palavra lamechas para usar, mas acho que é uma lamechice apropriada e por isso consentida. Os que estivemos directamente implicados na organização deste momento histórico para Portugal e para a Europa, tínhamos a certeza da singularidade do momento. Trabalhar, durante uma semana, dentro do Mosteiro dos Jerónimos, numa sala gótica com porta para a fantástica Igreja de Santa Maria de Belém de um lado, e para o Tejo do outro, é certamente uma experiência difícil de repetir.

Ver surgir um claustro, pérola do que há de mais português em termos de arquitectura, totalmente convertido à modernidade e às exigências dos media não foi o mais fácil, ainda que o resultado tenha mais do que compensado esse esforço. Momentos incríveis como aquele em que, dois dias antes, ficámos sem luz, mas continuámos a trabalhar como se nada fosse! O dos repórteres russos que faziam a cobertura dos preparativos da cerimónia, a partir do palco da RTP em frente à Porta Sul. A expulsão dos cogumelos pelos Intendentes então "sub", apesar do frio. A chegada do Tratado (ou das cópias, nunca cheguei a perceber) e o ar embevecido da Manuela a pousar com ele, qual guardiã! A azáfama de convites de última hora, de um briefing interminável, de uma discussão sobre carros e cortejos, de um ensaio que nunca existiu!

E finalmente o raiar de um dia histórico com uma discussão com polícias (ganhámos! e não, não éramos imprensa). As chegadas, formais e elegantes na porta principal, mais agitadas na segunda porta. Presidentes de Tribunais, Ex-Presidentes, Ministros, Deputados, Cardeais... ex-quase tudo, que quase mortos estiveram para ser convidados! Sentimento de participar na história, burburinho das grandes ocasiões, dos dias que não se esquecem. E chegou finalmente a inigualável criatura que insiste no estrelato e que se dirigiu à imprensa, deixando o Primeiro Ministro e o Ministro Amado à espera. Mas subimos. Estavam todos. Presidentes (até um que não assinava!), Primeiros Ministros, Ministros sem fim, a ver o Tejo, numa varanda de uma sala criada para este dia.

Vai começar: "Sr. Presidente, não se importa? Temos de ir." (nunca mais, provavelmente, poderia dizer isto à estrela, tive de aproveitar a oportunidade de lhe interromper o café). Descemos e através do Claustro sentia-se já a certeza de que tudo iria correr bem (certo, certo é que ninguém ainda tinha visto a Dulce Pontes!). Tudo no palco, quase todos já sentados e começa um drama já familiar à União Europeia: a crise da cadeira vazia. Há que resolver. Tudo se senta. Gordos e magros; giros e feios; importantes e menos. Ainda dei um salto ao túmulo do Camões para ver se ele estava disponível... mas diz que não. Os meninos do coro da Joana cantaram, ouvi dizer que menos bem. A mim pareceu-me bem, sobretudo impôs respeito e solenidade para o início da cerimónia, com 3 discursos que não ouvi nem nunca li, confesso.

Enfim a assinatura, países e cores sem fim, uma coreografia arriscada numa cerimónia tão solene, mas um sucesso televisivo e muito entusiasmante para os que tiveram a honra de ali estar. Porque podem comprar-se bilhetes para concertos, ainda que no mercado negro; mas nesta cerimónia irrepetível só estivemos uns poucos. Ali sim há motivo para ter uma t-shirt a dizer "Eu estive lá!". "Portugal": nervos, abraços, comoção, aplauso mais entusiasmado, sentido e demorado. Muitos sorrisos. Em toda a volta, o orgulho de todos pela cerimónia que decorria era evidente. A Dulce Pontes já teve dias: a roupa estava toda errada (dizem que na cabeça eram papelotes, outros que eram algas); a voz não estava melhor. O "Amor a Portugal" foi a escolha acertada ainda assim. E com esta cerimónia penso que sentimos que cumpríamos esse amor, que se tornou mais latente à medida que a Presidência chegava ao fim.

Cá fora, a fotografia de família, "perfeita, como sempre" (sic, diz quem sabe). Enquadramento inexcedível - a muito, muito custo! - colocação perfeita pelos exemplares OLs, bom ambiente no auge! Eléctrico do Tratado, outro sucesso, mais um momento de perfeita simbiose entre a tradição de Lisboa e a modernidade do veículo, rumo ao mais único dos museus portugueses, o Museu dos Coches, onde o Presidente da República ofereceu um almoço. Cenário inexcedível uma vez mais, com um protocolo diferente para uma ocasião distinta. História; apesar dos atrasos e das saídas intempestivas, dos cigarros na rua e das ausências na mesa, dos croquetes negados e da falta de trocos para pagar o almoço (ironias...). E quando todos saíram, foram os abraços, os sorrisos mais sinceros, a felicidade mais absoluta, pela vitória de uma Presidência que poderia ter começado melhor, mas que dificilmente poderia ter tido um final mais brilhante. Parabéns a nós!

Emma

Não tenho tido muita vontade, paciência ou saúde para escrever por estas bandas. Mas a pedido de uma família (a única leitora deste blog?) vou tentar que a Simone desça.

À falta de qualquer comentário sobre as eleições na Rússia (aka "O regresso dos bons velhos tempos"), merece comentário uma não-aterragem inacreditável que acabei de ver no Telejornal. O El País tem imagens e o vídeo do drama. Diz que a a culpa foi da Emma. Ordem do Mérito ao piloto.